Divisor de aguas

Divisor de águas



Por Jorge Ribeiro


Caminhava verso horizonte desconhecido
As pretensões eram apenas de seguir
Ao te conhecer a estrada era rumo ao precipício 
Agora contigo a direção é outra
Não me pergunto aonde vamos
Apenas sigo passo a passo

Até aqui o chão se mostrava carcomido
Com imanentes mentiras e consciência corrompida
Busco restauração da indumentária insônia
Esfolando as minhas verdades trogloditas 
Tento me afastar da miséria instaurada
Pra reconstituir a insubmissão de minha liberdade

Oscilo entre a tristeza e a solidão
Divago em etapas de orgulho e insanidade
Sou como os caretas do absoluto
Ou um tabaréu dos tempos virtuais
Maldita imaginação que provoca fadigas
Decadência  condenada ao enfado


Entre lamber o chão da escolha
E gritar a autonomia do tédio
Optei viver as debilidades como vantagem
E fingir ser um pensador itinerante
A partir de você o desejo é aporia
E me desembriaguei das idolatrias e equívocos


Os sonhos excessivos se esvaneceram
As noites se tornaram menos evasivas
Menos tempo para preocupações e moralismos
Indiferentismo a reacionários e dogmáticos
Canções desarticuladas em notas retilintes
Depois desse encontro dual, divisor de águas!


Ensaio sobre a loucura

Ensaio sobre a loucura



Por Jorge Ribeiro

E quem deve tomar a sério a loucura? Pergunta-se Erasmo de Rotterdam no seu Elogio da loucura, enfatizando o que o ditado popular já diz em outros termos que “de médico e louco, todos temos um pouco”, esse axioma leva a uma constatação: todos têm um pouco de loucura. Pensamos e fazemos coisas que somente insanamente seria aceitável. Esse desvio do nosso comportamento tido dentro da normalidade e é o que percebemos quando agimos desproporcionalmente aos fatos.  Se “de perto ninguém é tão normal“, diferentemente de que a maioria dita como normal aqui todo mundo está implicado numa espécie de coletiva loucura.
Quem decide os critérios da normalidade? Quem detém o poder? Quem tem as armas de manipulação? Quem possui o conhecimento? Se a ignorância como princípio de reconhecimento pode levar à sabedoria, a loucura como instrumento de crescimento pessoal pode nos ajudar a viver mais o equilíbrio pessoal. Rir ainda parece o melhor remédio diante dessa dissimulada e ridícula guerra na busca da “afirmação”. Tudo parece provisório: a vida, o ter, os contatos e para que tanto frenesi em fincar eternidades? É aqui que a loucura parece superior a toda sabedoria humana (Rotterdam).
O que leva uma pessoa, aparentemente feliz, cometer um desatino? O que impulsiona uma pessoa com certa estabilidade a se lançar numa fortuita aventura? O que instiga alguém a deixar os seus e se lançar no desconhecido? Seria loucura desafiar e desapontar os critérios e os padrões da maioria? O que é loucura para um jovem é também para um ancião? A loucura na velhice é a mesma para uma criança e vice-versa? O que se considera loucura para os religiosos é também para uma família? O que é loucura para um determinado grupo é também para outro grupo?
O parâmetro de julgamento quem dita? O modelo vigente? A certeza dos comportamentos e atitudes quem define? Quem tem o poder de estabelecer os padrões? Sem loucura a sociedade não sobrevive (Rotterdam), pois a loucura é o elemento formador da sociedade e das consciências. Sem loucura não há amizades e nem poesias, sem loucura não há descobertas ou invenções. A loucura é o combustível dos gênios e dos filósofos, a loucura é o desafio da natureza aos rótulos que os costumes tendem imperar. Somente o louco é feliz, pois sabe que tudo não passa de uma aventura e que a busca da razão para estabelecer sentido é sórdida loucura. É preciso uma dose de loucura para desafiar o estabelecido e irromper o óbvio. A loucura é o desacato do medo em prol da própria realização.

Se fossemos loucos para não dar satisfação? Morreríamos sim, mas livres. Se fossemos loucos para não se importar com as regras de condutas? Seriamos enxotados, mas autênticos. Se não prestássemos tanta atenção às opiniões, seríamos ignorados, mas nunca reféns. Então, “uma pessoa que odeia a si mesma poderá amar alguém”? (Rotterdam). A podridão dos costumes e a decadência das virtudes podem acionar a perda em “insípidas fábulas” e sonhos mirabolantes, quando não a onda de generalizada violência, falta de escrúpulos, revolta e indiferença. Somente a loucura pode libertar dessa pilhéria contumaz a humanidade que se deságua na dissolução de sua mesma construção. Criou-se um mundo que ninguém mais acredita e nem leva a sério, o grande teatro retrata a voluptuosa piada que se tornou a “aldeia global”. A loucura é o passaporte de quem não teme a maledicência da mesmice e aceita ser errante na própria terra. 

MEDO DO OUTRO

Medo do outro



Por Jorge Ribeiro

Tudo que vive tem medo. Por que sentimos medo? A origem do medo está no desejo de ser absoluto?  O medo é sentimento ou distanciamento dele? O que é o medo? A desconfiança de não estar sozinho? Ou o medo seria o receio de estar abandonado? A sensação do medo é a de ser vigiado ou a de ser dominado? No medo eu me sinto espiado ou eu me coloco como espião?
E esse suposto outro é meu inimigo ou pode ser um aliado? Esse outro, diverso de mim, que me mete medo, está fora de mim ou interno a mim mesmo? Depois da leitura do Des Cannibales (Michel de Montaigne), despertou-me essa reflexão de que chamamos de bárbaros e temos medo do que não temos domínio. Talvez por isso queremos exorcizar, extirpar o que não é nosso ou não são dos nossos. O diferente coloca outra possibilidade. O meu modo de ver e de ser não é o único e muito menos o melhor.
Então esse medo da alteridade seria porque nos sentimos ameaçados? Parece ser o que insinua Tzvetan Todorov no seu La peur des barbares, o que significa que o medo do outro se traduz bastante com o medo da inclusão ou da alteração. E isso acontece por risco de se perder? O medo do selvagem (Rousseau) é o medo que vai além do confronto da civilização e dos costumes, é a desconfiança da própria dissolução no que não me pertence ou não está sob meu domínio.
Certamente no encontro e no contato consigo mesmo e com os outros ha perigos de sujeição e de submissão, ali onde a barreira entre o que se é e se quer e tudo que uma civilização ou estereótipos culturais e religiosos nos impõem não faz muita diferenciação, pois o dado e o conquistado (Deleuze e Guattari) se confundem num amálgama que parece definir a própria identidade.
O diferente, muitas vezes é visto como o bárbaro, pois o desconhecido provoca insegurança e incertezas, e quem vive tem medo, mesmo porque a imaginação gera o medo. Não se pode viver numa continuada situação de perplexidade, faz-se necessário o aprender a ter medo, já que ele é constitutivo não somente dos humanos, mas de tudo que humanizamos (Eduardo Viveiros). É insustentável se viver num perpétuo pânico, pois a fábrica do medo pode não somente paralisar, como um caçador diante dum tigre, mas constrói uma civilização de perversidade que se deve destruir tudo que provoca ameaça e medo.
Essa cultura do medo gera o medo do medo (Montaigne), onde se arrasta ao invés de se caminhar, na qual se consolida a identidade de risco para justificar essa privatização do comum. Todos temos medo de alguma coisa e devemos estar com o outro e com outros, ainda que com o medo Face to face with fear (Krishnananda Amana) e isso é um dado. O que se passa é que o medo entrou em cena como instrumento de controle e essa possessão se transforma em incertezas, assim como o futuro e tudo que ainda não é. Superar esse abismo do medo? Talvez na analogia do devir-outro, reconhecendo que o meu Eu que é outro.
O medo do outro é medo de mim mesmo, pois toda coisa é humana, porque eu as faço assim, já que me torno o que possuo. O que dá a minha identidade? Os meus medos. Tem-se de adestrar o inimigo interno, para se tornar “eu mesmo”  ou se enfeitar para fugir do medo de si? Seria o medo de ser visto como se é? O maior inimigo é o próprio “ensimesmo”, porque eu sou eu mesmo com os outros, no encontro / confronto do tu com outro tu que se reconhece como tal, ou seja, o medo está no desconhecimento provocado pela indiferenciação de um tu com outro tu: De l’un et de l’autre (De Finance).

Quem é o outro de mim? No perspectivismo soaria que cada um é cada qual. Isso quer dizer que o medo do outro é uma questão de perspectivas? Certamente cada um vê de modo particular e diferente, ainda que dentro da mesma espécie (Clastres, Montaigne, Da Mata, Freyre, Deleuze, Viveiros), mas o ponto de vista de cada um é que provoca esse extasiar-se diante da alteridade? Se quem vê tem medo (parafraseando Viveiros), concluo dizendo que, o que vive tem medo, quem não tem medo é um fantasma. Poxa! Sem  medo não ha vida. Seguimos errantes, com medo, mas querendo sobreviver nessa insana verdade.

Rotulo

Rótulo

Por Jorge Ribeiro




Basta que você repita um gesto ou uma atitude lá vem o rótulo.
Caso você não corresponda ao critério da maioria, logo recebe um rótulo
Por ventura você seja diferente ou diferenciado, automaticamente lhe marcam com um rótulo.
O rótulo é a besta fera de quem se incomoda com o diverso para permanecer na mesmice.
O rótulo é a raposa que se sente forte porque os outros são apenas frangotes.
O rótulo é a tornozeleira eletrônica que quer impedir os gestos livres.
O rótulo é a força dos cafonas para impedir as novas possibilidades.

Você comete um deslize ou um desguio e pra sempre viverá com esse rótulo.
Você se posicionou ou se esquivou numa situação e irão martelar sempre nesse rótulo.
Você assumiu uma posição ou negou uma petição e vai ser tachado com um rótulo.
O rótulo é o preconceito que se instala e quer virar lei.
O rótulo é o exclusivismo que se pretende normatividade comum.
O rótulo é a intolerância que quer se demarcar como hegemonia de classes.
O rótulo é o medo do outro que quer se estabelecer como ameaça e perda.

O rótulo é o azedume do ciúme que quer destruir, como inveja que provoca dilacerações e incertezas. O rótulo é a aberração de quem não consegue se desvencilhar das sombras da própria insignificância, pois é a arma de quem pretende coisificar e paralisar o outro. O rótulo é o grande monstro que quer engolir a espontaneidade de quem não vivem pra dar satisfação.



Filhos da Luz

Filhos da luz



O que nos define? O que nos constitui? Qual o nosso destino? Compreender a Teofania do divino para eliminar as sombras. Mas de onde vem esse desejo do eterno? Qual nossa origem mesmo?
O que se esconde por detrás de cada uma de nossas ações? Busca desleal de um horizonte jamais decifrado. O que significa essa continua manifestação de nós mesmos? Tateamos na espera de uma resposta.
As fotos são fenômenos dos desejos de se expressar. Queremos nos eternizar ou entrar na luz? O esplendor que invade as janelas mais fechadas é o sonho de quem está esperando a “estrela radiosa da manhã” (Ap 2 e 22).
O desejo, que vejamos a luz e sejamos iluminados, que essa busca da luz nos ajude a irromper a força da escuridão.
A conversão exige uma lenta transformação, para que se torne aquela imagem gloriosa, que e traduz a mais perfeita comunhão entre o terreno e o divino.
A luz proporciona um conhecimento recíproco, onde a compenetração é real: torna-se um só com o que ilumina, sem limites.
Que quer dizer filhos da luz? Alvejar a vida na transparência do próprio Deus. Ser filhos da luz? É viver cada passo como uma nova alvorada que se descortina.  E como fazer essa experiência do eterno?  Deixar-se consumir como Moisés na “Sarça ardente” e não se exasperar, pois como o povo conduzido para fora da escravidão, Deus como uma “Nuvem luminosa” nos guiará pelos rumos da terra prometida.
Magicamente, ser iluminado é como Elia, exaurir-se no “Carro de fogo” e se dar conta que os próprios olhos já contemplam a paz, como fizeram os “Discípulos no Tabor”.
Ser filhos da luz é fazer uma profunda experiência com o Absoluto, assim como “Maria e os apóstolos no cenáculo” no Pentecostes. Aproximar-se da luz é correr o risco de ser anulado como “Paulo na estrada de Damasco” e passar a exibir em vaso de barro um tesouro inestimável.
Ser filho da luz é acolher na própria consciência o inenarrável que se mostra como “Lâmpada que arde” e aponta para infinito, essa comunicação é possível por meio de Jesus Cristo, o “Sol Eterno que nos veio visitar”.


Ser da caatinga

Ser da Caatinga





Ser da caatinga: ser gente, ser forte, ser abandonado, ser eu
Ventos uivantes: tempestades carentes e terrenos arredios
Sorrisos amargurados: inclinação robusta e gemidos retorcidos
Convivência brejeira: riqueza de espécies e desertos desgarrados
Sentimentos arraigados: consideração de pedregulhos e leveza

Ser da caatinga: ser da roçado, ser solitário, ser contrário e contrariado.
Espinhos dilacerantes: agudos olhares e mãos fragilizadas
Vegetação rameira: linguagem aberta e almas generosas
Gente sofrida: gritos desafiadores e lenços estépicos
Sol escaldante: raízes profundas e águas carrascas

Ser da caatinga: ser inexorável, ser nordestino, ser arretado e aconchegante
Alma desmatada: degradação dos costumes e escassez dos celeiros
Futuro indeterminado: sutileza do mandacaru e das bromélias
Substratos rochosos: olhares ciprestes e esperança árida
Raça ameaçada: desejos emblemáticos e resignação incomum

Ser da caatinga: esmo da interação e desafio da sensibilidade.



Jorge Ribeiro

Pra se pensar ....

Desespero anunciado

Desespero anunciado Para que essa agonia exorbitante? Parece que tudo vai se esvair O que se deve fazer? Viver recluso na pr...