Haveria amado

Haveria amado



Nevrálgico
Atordoado
Não vejo nada além de ti
Querer bem é uma longa viagem
O escuro da noite é o escuro do sol
Jogado ao mar em improviso
Carne trêmula e esperança silenciosa
Em um abandono sem perdão
Como posso não ser mais meu?
Haveria amado sim
Os pesadelos passam como os sorrisos
Vem tocar os destroços de mim
Apenas sei que haveria amado
Mãos ríspidas e anseios dessecados
Dias de primeiros respiros e primeiros temores
Queria ter a chave da força do teu abraço
Deixa cair as cinzas da solidão
Qualquer pessoa haveria amado!





PERPLEXIDADE

PERPLEXIDADE


Tempo e sonhos despedaçados
Um gosto amargo do cotidiano
Espera adormecida e despedaçada
Ilusões de dias sem dores e sem angústias
Liberdade fragmentada e desencaminhada
Gritos sufocados de alternativas inexistentes
Inquietação e sofocos. Perplexidade!

Clamo, rezo, imploro e tudo é igual
Choro, implico, resmungo e nada se move
Sou matéria movediça de um paraíso perdido
Sou desejo de ser o que a natureza negou
Busco saídas e somente encontro  absurdos
Almejo reencontro e apenas murmúrios perdidos
Uivos e crueldade. Perplexidade!

Orgulho e futuro feridos
Passado pesante e presente incerto
Loucuras e transferências divinizadas
Submissão administrada e ira contida
Desleixes e defeitos assumidos
Fragilidade estrutural e crença vacilante
Mania de revolta. Perplexidade!


Escravo de mim

E eu escravo de mim…


Quantas vezes me iludi pensando ser livre
E depois será como morrer, uma noite que nunca passa…
Um amor que não faz voar, que faz respirar e depois abandona.
Essa escuridão terrível que assombra todo sonho
E tudo depois será como desaparecer, um vazio que causa vertigem…
Chamo-te e não me responde, espero-te e nunca apareces
E eu nas noites esvanecido de tantos pensamentos e me adormento na solidão!
O incrível é que tudo passa, dias virão e outras coisas invadem.
Uma diferença abissal e insuficientes distinções e continuamos de olhos abertos!
Fecho os olhos esperando não mais lhes abrir e a morte não me alcança!
E continuo escravo de mim…
Escravo de meus desejos, os mais lúcidos, os mais sagrados e os mais desconcertantes!
Escravo de meus sonhos, os mais reais, os mais sensíveis e os mais atrozes!
Escravo de meus pensamentos, os mais nobres, os mais geniais e os mais destrutivos!
Escravo de minhas ações, as mais sinceras, as mais acertadas e as mais inúteis!
Escravo de meu destino, escravo de minha natureza, escravo de minhas escolhas, escravo de mim!
Memórias de vidas vividas, emoções sofridas e sentenças imaginadas!
Agonias de problemas atuais e de refúgios em veredas inexistentes!
Abraço a absurdos que amedrontam um sentido suicida!
Insanidade voluntária de uma escravidão anunciada!
Profanação de uma biografia que se desvincula da barbaridade do cotidiano!
Buscas incansáveis de si que se entrelaçam na areia movediça da angústia de viver!
Tempos, conhecimentos, realizações: e eu escravo de mim

Jorge Ribeiro

Novembro 2014

VIDAS PARALELAS

VIDAS PARALELAS


Começo essa reflexão com uma frase do filósofo alemão F. W. Schelling, quando no seu livro A essência da liberdade humana, afirma que “Todo nascimento é nascimento da escuridão para  a luz” (p.41), como novidade sim, mas pode ser da luz para a sombra também;  isso significa que todo caminho empreendido é passagem de uma realidade comum a uma realidade até então desconhecida, o que exige adaptação, entrega, renúncia, sacrifícios e perspectivas diferentes. A vida é esse contínuo movimento, onde cada pessoa é mergulhada no seu próprio mundo e também se entrelaça com o mundo de tantas outras pessoas e esse emaranhado de relações joga luzes diferentes na estrada de cada um, onde as transformações e as possibilidades se alternam como horizonte a ser descoberto, mas também como insegurança, dado que o ainda não experimentado se lança como areia movediça, capaz de diferenciadas paisagens.
A ondulação e a incerteza do amanhã provocam reações que passam desde o fechamento ou a fuga até a banalização e o desespero, entretanto, a maioria das pessoas, como mecanismo de defesa e de auto sustentação, opta-se por uma vida paralela, quer dizer, da construção de uma vivência que possa responder ao seu anseio de felicidade ou ao seu desejo de realização, por muitas vezes desafiando a própria estrutura ou construção sócio-cultural. Existem os que fantasiam e sonham, chegando a viver um conto de fadas na própria ideia; outros assumem os riscos das telenovelas e filmes como se fossem reais; ainda tem os que se esforçam por aparentemente viver o que queria ser; e tem os que vivem vidas paralelas, o marido bonzinho e pai presente que faz matador de aluguel; o empresário bem sucedido que se droga ou se faz garoto de programa; a mulher dedicada que trafica ou que realiza abortos clandestinos; o professor modelo que participa de grupo terrorista; o policial durão que é amante do cabelereiro, o religioso moralista que é frequentar assíduo de botecos. Tantas vidas vividas em paralelo, que no escondido do cotidiano realizam a própria essência, torna-se o que gostaria de ser.

E por que? Para protestar com uma escolha sem margens de liberalidades? Por inconveniência de um convencionalismo mais forte de sua mesma liberdade? Pela incapacidade de ser coerente com os próprios princípios? Para negar o que já não aceita como seu destino? Por que o ser humano é multiforme e uma única experiência não seja capaz de preencher seu desejo de ser ele mesmo? Para desafiar a lógica de um mundo determinista que aplaude a hipocrisia de quem constrói uma “fachada” de pessoa forte, íntegra e bem-sucedida? Para continuar sustentando o que seria impossível sem uma janela para outra paisagem? Por que as fraquezas, o incomum, o diferente, o novo são ignorados, rejeitados ou marginalizados? A vida paralela ou vidadas paralelas seriam gritos de revolta de uma natureza que encontra sua dignidade somente na liberdade‼!

UM RACIOCINIO ABSURDO

O Mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo


UM RACIOCÍNIO ABSURDO

As páginas que se seguem tratam de uma sensibilidade absurda que se pode encontrar esparsa em nosso século — e não de uma filosofia absurda que o nosso tempo, para sermos claros, não conheceu. É, portanto, de uma honestidade primordial assinalar, logo de início, o que elas devem a certos espíritos contemporâneos. Minha intenção de ocultá-los é tão pequena, que eles se verão todos citados e comentados ao longo da obra. Mas é proveitoso observar, ao mesmo tempo, que o absurdo, tomado até aqui como conclusão, é considerado neste ensaio como um ponto de partida. Nesse sentido, pode-se dizer o quanto há de provisório na minha ponderação: nada se saberia conjeturar na posição a que ela obriga. Aqui somente se encontrará a descrição, em estado puro, de uma doença do espírito. [1] Nenhuma metafísica, nenhuma crença estão misturadas com isso, no momento. São os limites e o compromisso único deste livro.

O absurdo e o suicídio

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas que é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência.
Se me pergunto em que julgar se uma questão é mais urgente do que outra, respondo que é com as ações a que ela induz. Eu nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade valia a fogueira. Se for a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas ideias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão de morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas. E como responder a isso? A respeito de todos os problemas essenciais, o que entendo como sendo os que levam ao risco de fazer morrer ou os que multiplicam por dez toda a paixão de viver, provavelmente só há dois métodos para o pensamento: o de La Palisse e o de Don Quixote. É o equilíbrio da evidência e do lirismo o único que pode nos permitir aquiescer ao mesmo tempo à emoção e à clareza. Em um assunto simultaneamente tão modesto e tão carregado de patético a dialética clássica e mais sábia deve, pois dar lugar — convenhamos — a uma atitude intelectual mais humilde e que opera tanto o bom senso como a simpatia.
O suicídio sempre foi tratado somente como um fenômeno social. Ao invés disso, aqui se trata, para começar, da relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto como este se prepara no silêncio do coração, da mesma forma que uma grande obra. O próprio homem o ignora. Uma tarde, ele dá um tiro ou um mergulho. De um administrador de imóveis que tinha se matado, me disseram um dia que ele perdera a filha há cinco anos, que ele mudara muito com isso e que essa história “o havia minado”. Não se pode desejar palavra mais exata. Começar a pensar é começar a ser minado. A sociedade não tem muito a ver com esses começos. O verme se acha no coração do homem. É ali que é preciso procurá-lo. É preciso seguir e compreender esse jogo mortal que arrasta a lucidez em face da existência à evasão para fora da luz.
Há muitas causas para um suicídio e, de um modo geral, as mais aparentes não tem sido as mais eficazes. Raramente alguém se suicida por reflexão (embora a hipótese não se exclua). O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável. Os jornais falam frequentemente de “profundos desgostos” ou de “doença incurável”. Essas explicações são válidas. Mas seria preciso saber se no mesmo dia um amigo do desesperado não lhe falou em tom indiferente. Este é o culpado. Pois isso pode ser o suficiente para precipitar todos os rancores e todos os aborrecimentos ainda em suspensão. [2]
Mas, se é difícil fixar o instante preciso, o procedimento sutil em que o espírito se decidiu pela morte, é mais fácil extrair do próprio gesto as consequências que pressupõe. Matar-se é de certo modo, como no melodrama, confessar. Confessar que se foi ultrapassado pela vida ou que não se tem como compreendê-la. Mas não nos deixemos levar tanto por essas analogias e voltemos à linguagem corrente. É somente confessar que isso “não vale a pena”. Naturalmente, nunca é fácil viver. Continua-se a fazer os gestos que a existência determina por uma serie de razões entre as quais a primeira é o habito. Morrer voluntariamente pressupõe que se reconheceu, ainda que instintivamente, o caráter irrisório deste hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o caráter insensato dessa agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.
Qual é, portanto, esse sentimento incalculável que priva o espírito do sono necessário à vida? Um mundo que se pode explicar mesmo com parcas razões é um mundo familiar. Ao contrário, porém, num universo subitamente privado de luzes ou ilusões, o homem se sente um estrangeiro. Esse auxílio não tem saída, pois é destituído das lembranças de uma pátria distante ou da esperança de uma terra prometida. Esse divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário, é que é propriamente o sentido da absurdidade. Como já passou pela cabeça de todos os homens sãos o seu próprio suicídio, se poderá reconhecer, sem outras explicações, que há uma ligação direta entre este sentimento e a atração pelo nada.
O assunto deste ensaio é precisamente essa relação entre o absurdo e o suicídio, a medida exata em que o suicídio é uma solução para o absurdo. Pode-se tomar por princípio que, para um homem que não trapaceia, o que ele acredita verdadeiro deve lhe pautar a ação. A crença na absurdidade da existência deve, pois, lhe dirigir o comportamento. É uma curiosidade legítima se indagar claramente, e sem falso pateticismo, se uma conclusão de tal ordem exige que se abandone o mais que depressa uma condição incompreensível. Refiro-me aqui, é claro, a homens dispostos a estarem de acordo consigo mesmos.
Apresentado em termos claros, esse problema pode parecer ao mesmo tempo simples e insolúvel. Mas se supõe erroneamente que problemas simples suscitam respostas que não o são menos e que a evidência implica evidência.A priori, e invertendo os termos da questão, assim como se alguém se mata ou não se mata, parece só haver duas soluções filosóficas, a do sim e a do não. Isso seria belo demais. Mas é preciso incluir a parte daqueles que, sem consumar, interrogam sempre. Mas chego, aqui, a ironizar: trata-se de maioria. De igual modo, vejo que os que respondem não podem agir como se pensassem sim. Com efeito, se concordo com o critério nietzschiano, eles pensam sim de um modo ou de outro. Ao contrário, acontece muitas vezes que aqueles que se suicidam estavam convencidos do sentido da vida. Tais contradições são constantes. Pode-se mesmo dizer que elas nunca foram tão vivas quanto neste ponto em que a lógica, inversamente, parece tão desejável. É um lugar-comum comparar as teorias filosóficas com o comportamento daqueles que as professam. Mas é preciso ressaltar que, entre os pensadores que não admitiram um sentido de vida, com exceção de Kirílov, que pertence à literatura, de Peregrinos, que se origina da lenda, [3] e de Jules Lequier, que aventa a hipótese, nenhum conciliou sua lógica a ponto de recusar sua vida. Por zombaria, menciona-se muito Schopenhauer ao fazer o elogio do suicídio ante uma mesa bem fornida. Aí não há nenhum motivo para brincadeira. Esse modo de não levar a sério o trágico não é tão grave, mas acaba por julgar um homem.
Diante de tais contradições e tais obscuridades, é preciso acreditar, consequentemente, que não há nenhuma relação entre a opinião que se pode ter sobre a vida e o gesto que se faz para deixá-la? Nada de exageros nesse sentido. No apego de um homem à vida há alguma coisa de mais forte que todas as misérias do mundo. O julgamento do corpo vale tanto quanto o do espírito e o corpo recua ante o aniquilamento.
Adquirimos o hábito de viver antes de adquirir o pensar. Nessa corrida que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte, o corpo mantém esta vantagem inalterável. Enfim, o essencial dessa contradição se acha no que denominarei a escapada por ser, ao mesmo tempo, um tanto menos e mais que o entretenimento no sentido pascaliano. A escapada mortal que constitui o terceiro tema deste ensaio é a esperança. A esperança de uma outra vida que é preciso “merecer” ou a trapaça dos que vivem não para a própria vidas, mas para alguma grande ideia que a ultrapassa ou a sublima, lhe dá um sentido e a atraiçoa.
Assim, tudo contribui para embaralhar as cartas. Não é à toa que até agora fizemos trocadilhos e fingimos acreditar que recusar à vida um sentido conduz necessariamente a declarar que ela não vale a pena ser vivida. Na realidade, não há nenhuma correspondência obrigatória entre esses dois julgamentos. Apenas é necessário se recusar a se deixar perder no meio das confusões, das disposições ou inconsequências até o momento apontadas. É preciso separar tudo e ir direto ao verdadeiro problema. Uma pessoa se mata porque a vida não vale a pena ser vivida, eis sem dúvida uma verdade — improfícua, no entanto, pois não passa de um truísmo. Mas esse insulto à existência, esse desmentido em que ela é mergulhada provém do fato de ela não ter nenhum sentido? Se sua absurdidade exige que se escape pela esperança ou pelo suicídio, eis o que se precisa clarear, perseguir e ilustrar, afastando tudo o mais. É o absurdo que domina a morte: é preciso dar a este problema precedência sobre os outros, fora de todos os métodos de pensamento e dos jogos do espírito desinteressado. Os matizes, as contradições, a psicologia que um espírito “objetivo” sempre consegue introduzir em todos os problemas não têm lugar nessa pesquisa e nessa paixão. O que aí é necessário é tão-somente um pensamento injusto, isto é, lógico. Isso não é fácil. É sempre cômodo ser lógico. É quase impossível ser lógico até o fim. Os homens que morrem por suas próprias mãos seguem assim até o fim a inclinação do seu sentimento. A reflexão sobre o suicídio me dá, então, a oportunidade de tratar do único problema que me interessa: existe uma lógica até a morte? É algo que eu só posso ficar sabendo se perseguir, sem paixão desordenada, e apenas sob a luz da evidência, o raciocínio cuja origem assinalo aqui. É o que chamo um raciocínio absurdo. Muitos chegaram a começá-lo. Não sei se se contentaram com isso.
Quando Karl Jaspers, ao mostrar que era impossível fazer do mundo uma unidade, escreve que “Essa limitação me conduz a mim mesmo, aí onde eu não tenho como me livrar, um pouco antes, de um ponto de vista objetivo que só faço representar, aí onde nem eu mesmo ou a existência de outrem já não pode se tornar objeto para mim”, evoca, além de tantos outros, esses lugares desertos e sem água onde o pensamento atinge os seus confins. Além de tantos outros, sim, não há dúvida, mas sob que pressões para se livrarem disso! A essa última volta, em que o pensamento vacila, muitos homens chegaram, e entre os mais humildes. Esses, então, renunciavam ao que tinham de mais caro e que era a sua vida. Outros príncipes diante do espírito abdicaram também, mas foi no suicídio de seu pensamento, em sua mais pura revolta que o fizeram. O verdadeiro esforço, ao contrário, é de não ceder o tanto quanto possível e examinar de perto a vegetação barroca desses lugares distantes. A perspicácia e a tenacidade são espectadores privilegiados para o jogo inumano em que o absurdo, a esperança e a morte se alternam nos seus lances. O espírito pode então analisar as imagens dessa dança ao mesmo tempo elementar e sutil, ilustrando-as e revivendo-as ele próprio antecipadamente.

Morte e mortes

Morte e mortes



Chegando o dia da comemoração do fiéis defuntos me sinto tentado a fazer uma reflexão sobre a morte, ou melhor dizendo, sobre as mortes.
Partimos de algumas afirmações: o modo de ver a morte para cético  se aproxima muito da dimensão realista:  “O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela” (Fernando Pessoa). A morte é uma constatação fenomenológica, ela chegará mais cedo ou mais tarde, com uma desculpa ou outra, mas sempre chega, o importante é viver o presente com intensidade e com veracidade e não dá tanto peso à morte e às suas consequências. A morte faz parte da nossa natureza caduca, ela é o fim da permanência no tempo e no espaço.
Para um cínico, a morte é uma ironia que se deve dar pouca importância: “Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro” (Confúcio ),  ou  ainda, “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais” (Epicuro ). Ela é inevitável e passar os dias pensando ou se paralisando por medo dela não resolve, mas impede ainda de viver de maneira generosa e integrada. A morte é conclusão de uma vida no mundo.
Para um realista, concebe-se a vida como uma passagem a ser registrada: “Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez” (William Shakespeare ). A morte deve ser encarada, assumida e canalizada, não permitindo assim que a sua incidência provoque fragmentação na busca da própria realização.
Para o ateu a morte é um absurdo, mas é um encontro que não se pode fugir: “Temer o amor é temer a vida e os que temem a vida já estão meio mortos” (Bertrand Russell ) e ainda “Nunca se é homem enquanto se não encontra alguma coisa pela qual se estaria disposto a morrer” (Jean-Paul Sartre). A morte se coloca no horizonte como o propósito da mesma existência, isto é, a morte é a razão pela qual se existe, pois a vida não tem uma razão, tudo não passa de uma ilusão e querer justificar a sua realidade é dar margem à barbaridade.
Para um crente, especialmente um cristão, a morte é o inicio de uma nova realidade: “Não morro, entro n avida” (Teresa de Liseux).  A morte para quem acredita não é o fim e nem o objetivo da vida, é a ponte que se deve atravessar para se chegar à verdadeira vida. A vida eterna. Para quem tem fé na ressurreição, a morte é resultado de uma vida não vivida justamente, castigo pela desobediência e que encontra em Jesus Cristo a sua remissão, ou seja, n’Ele a morte perde a sua força e o seu valor, pois Ele se coloca como possibilidade da vida que não passa, da vida verdadeira, da vida em Deus: “ Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Jesus promete a vida, a eternidade a partir da crença da sua filiação divina, quer dizer, Jesus é o passaporte para o Reino, Ele se propõe como sentido e como realização da esperança, mas também como resposta aos desejos mais profundos da pessoa e como possibilidade e garantia de eternidade: “Eu Sou a ressurreição e a vida, todo aquele que crê em mim, mesmo que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Tu crês nisso?” (Jo 11, 25-26).
Nesses dias que comemoramos os fiéis defuntos, os nossos irmãos falecidos, cabe-nos a pergunta, isto é, como lidamos com a questão da morte e como buscamos superar o seu medo. Não basta esperar a vida eterna, faz-se necessário viver a vida presente, sem fechar a possibilidade de entrar na vida de Cristo. O que temos garantido é o tempo que se chama hoje e quando o vivemos com generosidade e sinceridade, abrimos uma porta para a eternidade. Jesus se coloca como ponte para esse horizonte que vai além do dado, do constatado e cabe a cada um de nós acreditar em suas palavras e deixar que ele ilumine com sua presença a própria existência ou viver a morte como o fim de tudo ou ainda estar na incerteza do que seja a vida e do que seja a morte.  
Dela não escapamos! Não podemos querer nos enganar, refugiando na vida eterna e nem descartar sua possibilidade. Jesus é a alternativa para um sentido à vida e à morte, acreditando n’Ele e nas suas promessas se tem a chance de viver a vida em plenitude, entretanto não podemos nos eximir de enfrentar a vida e a morte com as suas belezas, dramaticidades e possibilidades, isto é, vivendo a fadiga do cotidiano com o heroísmo de quem não espera nada e nem ninguém, mas não se fecha aos raios novos que o sol pode fazer debruçar sobre cada alma despretensiosa e capaz de acolher o convite de ir além do que já se te e se conhece: “Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando... Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive, já morreu...” (Sarah Westphal ).
Fica o convite: “ Vinde a mim todos que estejam cansados e eu os aliviarei” e cada qual escolhe que resposta quer tributar e onde coloca a própria esperança. E em relação aos que já partiram? Não os esqueçamos, façamos memória dos momentos bonitos vividos juntos. Oremos pela paz e pelo repouso de seus espíritos e os entreguemos nas mãos de quem pode vencer a morte



P. Jorge Ribeiro

Pra se pensar ....

Desespero anunciado

Desespero anunciado Para que essa agonia exorbitante? Parece que tudo vai se esvair O que se deve fazer? Viver recluso na pr...