Nômade

Nômade




POR P. JORGE RIBEIRO


Ser itinerante da própria existência, caminhar errante, vagamundo, sem destino e sem moradia fixa, mas no vivente o DNA pede pra ser assim, ser nômade, caminheiro, sem raízes e sem apegos, mas atentos a cada espaço e lugar que se tem perambulado. A vida é um movimento contínuo e sem volta, estrada que se faz sem poder voltar atrás. As pessoas se iludem querendo estabilidade e certezas, mas a própria dinâmica da vida é incerteza e reticências. Programam-se, organizam-se, mas garantia não se tem. Juntam-se tesouros, conhecimentos e histórias, mas no vendaval dos acontecimentos, percebem-se que tudo não passa de areia movediça. Hoje se pensa e se vive dessa maneira, mas num amanhã tudo pode ser diferente, deve-se estar preparado para as mudanças. Quem se ataca a um estilo ou a um padrão acaba por não ter forças e recomeçar, de empreender e de surpreender também. A felicidade não está na monotonia da mesmice, mas na luta diária de viver sempre de modo novo. Pequenas mudanças, diferentes atitudes e novos gestos, isso renova e dinamiza. É preciso alimentar em cada pessoa o espírito de perambulante, afinal, nesse mundo se é peregrino de uma vereda que é desconhecida, o melhor é aproveitar as paisagens da passagem, a jornada pode ser muito longa e se cansar antes da chegada. Para que se agarrar ao tempo, ao espaço, às coisas e até às pessoas? Mais dias ou menos dias todos se vão , vão a algum lugar ou vão definitivamente e se deve refazer os laços. A essência da pessoa é a buscar, querer mais, desejar, por-se em movimento representa essa metáfora da saída continua de si para poder se encontrar e se reconhecer, pois é no encontro com o outro que cada qual confronta e percebe a sua mesma existência. Caminhos infinitos, dentro de si e na relação com o outro, onde a identidade é afirmada e o diálogo se faz possível. Esse mergulho da condição transeunte causa ansiedade e angústia, mas também esperança de completitude e realização. Ter consciência que se é descontínuo e que se precisa sempre do outro para ser o que se pretende ser ajuda a viver a própria condição, não como pilastra, mas como nômade.



Chegou os meus 47 anos!

Chegou os meus 47 anos!


Pe. Jorge Ribeiro
www.pjribeiro.blogspot.com

Hoje completando 47 anos, o que dizer, o que expressar? Por um lado agradecer. Gratidão é um sentimento nobre que ajuda a ter noção da própria existência e por onde ela deve ser encaminhada. A gratidão a Deus pelo dom da vida e por me permitir celebrar esse ano assim, cuidando da saúde, uma parada faz bem também. Gratidão aos familiares e amigos que se fizeram presentes de diversas formas e maneiras. Vocês são esses ingredientes necessários para preencher os múltiplos sonhos de meu caminhar. Gratidão aos paroquianos, a razão de minha ação pastoral e da busca de um ministério que possa fazer a diferença. Gratidão ao corpo docente, discente e funcionários da FACFS, é lá que tenho  consumido mais tempo desses últimos meses. Gratidão também a quem, por razões diversas procuram dificultar o meu trabalho, perseguir, caluniar. Faz parte, até Jesus foi cutucado. Os carrascos nos ajudam a melhorar e não acreditar na bondade universal das pessoas. Infelizmente os interesses e ciúmes levam as pessoas a serem ferozes e maldosas. Enfim, gratidão ao universo do qual faço parte, somos natureza e parte dessa criação de Deus. Cuidemos do mundo criado e as bênçãos recairão sobre nós. Sem esquecer, o irmão e amigo Padre Paolo Cugini, ele escreveu ontem da Amazônia, onde está em nova missão, o que seria fazer 57 anos, a partir da iniciativa dele também estou me ousando expressar nesses 47 anos.
O segundo sentimento que quero expressar nesse dia é de perdão, sim a consciência que nem sempre vivi do melhor modo possível, faz-me pedir perdão, desde os erros cometidos, as omissões, as indiferenças e às vezes que deveria ser mais enérgico nas minhas decisões. Perdão se escandalizei alguém e se na autonomia do uso da minha liberdade causei perplexidade ou qualquer sentimento não positivo. Perdão por ter amado mais e perdido tempo com quem de fato merece. A reconciliação é sinal do amor.
O terceiro sentimento de hoje é esperança. Espero dias melhores e que a minha vivência com os outros possa ser melhor também. Esperança que haja mais justiça no Brasil e menos corrupção. Esperança que cada líder assuma seu compromisso e responsabilidade e a igreja também assuma seu protagonismo e oferte uma palavra de alegria e esperança ao povo. Esperança tenho porque a fé derramada em nós não decepciona. A esperança é o que nos mantem de pé e lutar por uma vida e por uma sociedade mais solidária e igualitária.
Encerro dizendo muito obrigado, mais uma vez. O hoje é o que temos. Dizia na sala de aula, hoje, que a vida só tem sabor se vivida cada instante e cada momento como se fosse único. E é. Mas muitas vezes esquecemos e transferimos para depois, para o passado ou para os outros. Hoje, acordar, orar, ir trabalhar, participar de formação, ministrar aulas, almoçar com família e amigos, celebrar a santa missa, responder mensagens. A vida é isso. O resto é sonho. O hoje que temos para nos reconciliar com Deus, para fazer o bem, evitar o mal e ser o que queremos ser. Esse é o tempo favorável, tempo de Deus, tempo nosso.

Deus seja louvado!


Em caminho

Em caminho

A Quaresma é um itinerário a se percorrer. Não é somente um tempo, ainda que favorável, é um percurso, uma caminho a se fazer. Ao se colocar no caminho, tantas experiência e vivências se cruzam e se entrecruzam, pois a dinâmica do colocar-se em movimento é se entrelaçar com outras pessoas que também perfazem o trajeto. É na encruzilhada da caminhada que o cristão deve olhar para dentro de si e para o próximo e, a partir daí, verificar se o caminho que ele fez corresponde ao ideal da fé que professa e do propósito que se faz, de conversão pessoal e social. 
Perante os encontros e os percalços que se possa ter ao longo da trajetória, faz-se necessário abrir a mente e o coração para poder acolher as novas necessidades de mudança e escutar os gritos que clamam por maior justiça e interesse. A Quaresma não se caracteriza pelas renúncias que se possa fazer ou pelo jejum a ser praticado, mas pela capacidade de se colocar à disposição para adequar o próprio caminho ao caminho do Senhor. 
As belas experiências das via-sacras, dos encontros da CF, as visitas às famílias, tudo isso permite ao cristão fazer uma aproximação do que ele acredita daquilo que são as práticas devocionais e os frutos da tradição. A piedade que as pessoas empreendem nos encontros, meditando a Palavra de Deus e os textos que a Igreja indica para esse tempo, faz com que a Quaresma não estacione numa busca intimista de perfeição, mas em comunhão e em transformação da comunidade em que se encontra inserida a pessoa. 
A proposta da Quaresma é uma perspectiva que se abre, tanto de revisão pessoal e social, mas também como capacidade de situar-se. Irmanando-se nas diferentes situações que se propõe a reflexão da CF e no sofrimento de tantos que são injustiçados e padecem o peso da corrupção, assim, estar em caminho significa não assumir a realidade como pronta e não se deixar esmorecer pelas dificuldades, mas refazer e reinventar o caminho a cada dia. A quaresma ajuda a refletir sobre a caducidade da vida: do pó vieste e ao pó voltarás, mas é também um grito de libertação, pois o deixar-se reconciliar com Deus, apresenta-se como a possibilidade de renovação, de restauração e de uma luta, que ainda que difícil, não é inútil e nem em vão. 
O fruto e a alegria do caminho é o próprio caminhar. Onde chegar? Esse é outro detalhe. Viver a experiência do momento é o que faz ser peregrino e discípulo. Tantas vezes perde-se tempo em busca de uma igreja pura, santa, perfeita, liturgicamente correta, mas não se percebe a alegria e a transformação das rezas em grupos, das caminhadas e peregrinações que os fiéis empreendem.  As conversas com os idosos e enfermos e com seus familiares, por exemplo, humaniza e oferece atualização do Evangelho que, muitas vezes, nem nas pomposas celebrações se tem acesso. 
Enfim, a Quaresma possibilita a viver o cristianismo de modo encarnado e atual, sem os devaneios e os rubricismos que engessam e tiram a espontaneidade dos atos religiosos. A missão acontece aí onde as pessoas se deixam tocar uma pelas outras, na convivência, no diálogo, nos desencontros também. O formalismo gera apenas funcionários e especialistas. A naturalidade cria vida e esperança. Que importa se a senhora ao lado canta errado o bendito, importante que sua fé leva ao encontro com o Servo Sofredor. É preciso caminhar sempre, ainda que os pés estejam sangrando, mas parar é que realmente mata. 

Entre laços


Entre laços



Por Pe. Jorge Ribeiro

Caminhando entre os emaranhados de relações e de conquistas, na busca incansável de reconhecimento e de confirmação, a vivência de novas realidades se manifesta entre laços. Laços de ternura e de afeto, laços de sangue e de negócios, laços de experiências e de possibilidades, mas sempre laços. Laços que vinculam e prendem, laços que restringem e apertam, laços que determinam e acolhem, mas sempre entre laços. Os laços nos deixam em ligação, os laços fazem a integração e também na contramão. Laços de liberdade e de aderência, laços humanos que deixam em conexão, laços nas redes sociais e na cotidianidade, mas sempre entre laços. Quais as consequências dos nossos laços e o que isso ajuda na construção da própria existência? Entre vidas programadas e vidas desperdiçadas, os laços provocam familiaridade e também individualismo, pois os laços podem se configurar como bênção ou como maldição, dependendo de como esses são estabelecidos.  Quando colocam em comunhão e faz viver em comunidade os laços são bênçãos e quando fomentam fragmentações e individualismos são maldições. A segurança e a liberdade se entrelaçam como justiça que precisa bem contrabalançar para não se perder o que gera estado de estabilidade na alma humana. Os laços criam uma d´vida da pessoa em relação à outra, ninguém existe por si mesmo, logo é em face ao outro que se constrói e se constitui e nessa construção recíproca se pode vislumbrar uma vida equilibrada e de superação do individualismo sem perder a própria singularidade.

DECLARAÇÃO


Declaração




Adentrar em Tua casa me traz a real alegria
Alimentar-me do teu Corpo me faz divino
Sentir o teu abraço me ajuda ser mais filho
Lavar-me com teu perdão me deixa renovado.
Em Ti que posso dar sentido aos meus passos
Contigo meu caminhar não é destino errante
Sou peregrino, itinerante em busca da terra prometida
Mensageiro que anseia pela mesa do Pai
Gratidão e esperança são minhas companheiras
Felicidade sem fim é confiar na Tua misericórdia
Consolo perene é revestir do teu amor
Tu és a minha mesma vida!


É sempre mais noite‼!

É sempre mais noite!



Por padre Jorge Ribeiro




Não se torna cada vez mais noite? E, sempre mais noite? (Nietzsche). Essa constatação do poeta-filósofo é a contemplação do crepúsculo dos ideais e valores que no ocidente, e não somente, estão caminhando para uma total derrocada. O desespero de quem se percebe aviltado e sugado por tantas forças desconhecidas que invadem e evadem o horizonte de estabilidade de anos e anos de construções de uma civilização que se pretendia  homogênea e perene.  É sempre mais noite! É o grito do absurdo que se instala em um futuro cada vez mais incerto e reticente,  e o que resta? O sopro do vazio que de delineia como possibilidade errante de um caminho a perfazer, mas que caminho? O que resta são fragmentos, algumas apostas e muitos destroços. Não temos mais deuses, não temos devoção, não temos mais profetas e nem oráculos. Temos ainda alguns templos que angariam perambulantes que resistem em seus sonhos e não se deixam levar pela correnteza das novidades. É sempre noite pois o medo de não ser o que se pretende ser é cada vez mais evidente. Poderia se pensar que a verdade vai libertar dessa escuridão. Mas que verdade? Não se adere mais a nenhuma verdade, aliás, o conceito de verdade passa por um esvaziamento. O que as máscaras encobrem desse prelúdio  não é o vazio da falta de sentido, mas a falta de sentido do próprio sentido. Uma nuvem densa de relativismos encobrem as atmosferas do pensar e do agir e as pessoas se digladiam por vis interesses. Os sepulcros lacrados por anos de hipocrisia se abriram manifestando toda sua podridão e ausência, somente angústia, desespero, violência nos atingem. Tomara que ainda  permaneça um possível raiar, pois antes do amanhecer o céu fica mais escuro (prov. Arabe),  pois é sempre noite antes do amanhecer. Essa escuridão longa, quando se terminar de atravessar, caso haja uma aurora, não mais nos reconheceremos, pois nos perdemos na noite e apenas os zumbidos são reais, pois viver se tornou cansativo.


                                            

Com que roupa eu vou?


Com que roupa eu vou?




Tudo parece ser apenas um jogo de interesses e de ideologias. Um partido mandava e fazia como bem entendia e agora outro partido comanda e deve fazer tudo como bem entender. Onde está o interesse da nação? O bem-comum que deve ser a busca primordial do Estado está relegado em qual estágio? A preocupação parece girar em torno de fortalecer e proteger certa concepção da vida e da realidade. Faz-me lembrar duma música que entoava: Agora vou mudar minha conduta. Eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar (Noel Rosa). O teor de uma impostação, como forma de governo e de retratar a realidade, qual é mesmo? Seria impedir as formas diferentes e divergentes de conceber as coisas? A roupagem, que fala muito e muitas vezes se torna o epicentro da questão, carrega consigo um fundamento e uma essência ou se está prestes a entrar num formalismo? A minha desconfiança e medo também é que em nome da roupagem se transcure e derroque o verdadeiro sentido de ser, estar e governar. E a humanidade é mestra em disfarce e para manter a aparência é capaz de atrocidades. Uma irrupção parece querer suplantar os resquícios de uma poeira que incomoda, mas acaba jogando o senso pela janela da euforia. Quando uma razão, seja ela qual for, precise da força para se impor, ela mesma perde a sua razão de ser (cfr. Voltaire). Questões sérias precisam ser tratadas de modo sério, numa linguagem séria e num tom sério também. A ironia é uma arma poderosa, mas se usada inapropriadamente pode ferir a quem ela profere. É preciso ter parcimônia e não deixar que os arroubos emotivos e emocionais não arranquem a real vivência do tempo presente.

Pra se pensar ....

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Desespero anunciado Para que essa agonia exorbitante? Parece que tudo vai se esvair O que se deve fazer? Viver recluso na pr...