CASUAL

Casual



Da improbabilidade do circunstancial a flecha da casualidade acaba por abrir uma inexplicável brecha. Nas curvas dos devaneios um estopim tende a se alastrar. Uma ferida que carcomia a inoxidável virtuosidade. Sem direitos e sem defesas, afinal  quando  a vida parece insuportável e nada parece ter sentido, a dor é um passatempo e  a morte é apenas o princípio.” (do Filme a Múmia). Nada de fatalismo, é que o realismo faz viver sem muitas ilusões e aceitar mais serenamente os percalços que por ventura se encontre, mesmo porque A melhor maneira de realizar os seus sonhos é acordar.” (Paul Valéry). Sem  derrotismo, mas também sem enganos, dado que cada um é o que se é e não o que se quer ser. Portanto, não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível.” (Sun Tzu). Talvez esse seja o segredo da felicidade, aproveitar o máximo o pouco que se tem.  Essa vida é mesmo rude e as lamentações são desmesuradas, talvez seria vida abestada como afirmara alguém. A caminhada parece um pontapé no nada, em direção ao ermo, ao completo vazio. Esse desacato da existência é um contrassenso da mesma vontade que quer permanecer, mas tem medo de onde não pode chegar.  Esses passos indecisos, essas emoções trêmulas, essas lágrimas tênues, esses insanos desejos, essa musicalidade temerária e esse clima espectral, tudo ambiciona a hastear a bandeira da incredulidade e da desconfiança. Não existe plano, não passa do resultado de um caprichoso desencontro de historias e de nexos desconexos. E as coincidências? São providenciais? Tudo predestinado? Quantas ironias nessas desventuras. Não me iludo muito mais, posso não conquistar muito, mas também me desiludo pouco. Como estilo e como pensamento, a minha escolha recai no casual.

Jorge Ribeiro



Qualquer lugar!

Qualquer lugar!




O lugar não é aqui! Resta-nos o medo dos bárbaros!
Talvez seja o medo da barbárie e da conspiração.
Ainda estou por aqui, com todos e com o medo do outro.
Todo lugar pode o certo, não se tem outras possibilidades.
O que dizer dessa degeneração? Um misto de náusea e revolta.
Qual é o lugar apropriado? Errante e sem paradeiro, vamos caminhando.
O futuro? Nada de expectativas, apenas deixamos que se arrastem os devires.
A fraternidade. Como vivenciá-la entre tanta mediocridade e banalidade!
Nem libertação e nem escravidão, é o marasmo mesmo que nos corrói.  
Os bons sentimentos, as boas companhias! São bálsamos para ir suportando.
Pessimismo?  Não vejo que cadáveres caídos e tantos urubus que tateiam!
Decepção ou insegurança? Talvez se tenha esperado demais e criado ilusões.
Perplexidade diante desse barril de pólvora, guia  de um tempo que não existe.
Qual é o lugar certo se a periculosidade é inerente ao existir?
Qualquer lugar serve se tudo é a mesma coisa!




POSSIBILIDADE

Possibilidade




Amanhã é a possibilidade do que ainda não existe
Sonhar é a possibilidade do que ainda não se pode fazer
Pensar é a possibilidade do que ainda não aterrou
Imaginar é a possibilidade do que ainda não vingou
Chorar é a possibilidade do que já se perdeu
O outro é a possibilidade de ver o que eu não sou
Violência é a possibilidade do que ainda não se aceitou
Tolerância é a possibilidade do que ainda se pode dialogar
Depressão é a possibilidade do que ainda não se superou
Acreditar é a possibilidade do que ainda se pode esperar.
Tudo é a possibilidade do que ainda não se percebeu como nada.
Possibilidade é a possibilidade do que ainda se quer viver!


Desafetos

DESAFETOS



Um gosto amargo de tristeza e decepção é ancorado pela mesmice e pela indiferença, isso fundamenta o individualismo e o desânimo que abate sobre o peregrino. Nesse vale de impiedade e de ganância, o que nos resta? Desaguar-se no desespero e na angústia e inebriar-se por torpes satisfações? Acabrunhar-se no próprio peso e arrastar-se sem perspectivas numa estrada desconhecida? Esconder-se nos infinitos mistérios e alienar-se em práticas rituais e desencarnadas? Revoltar-se e maltratar a si mesmo, colocando-se como esquadrão ácido e feroz? Acreditar em dias melhores e começar paulatinamente a remoção dos pedregulhos e expulsar todo apego e privilégio? Qualquer que seja a solução, essa é inacabada e violenta. Sem garantia de sucesso ou de reconhecimento. Como lidar com essa ambiguidade estrutural e reticente duma realidade que se mostra escarnecida e cínica? É impreterível um posicionamento e uma atitude. O preço será demasiado alto e o custo pode extrapolar as próprias intenções de continuidade? Qual certeza se agarrar para não sucumbir no turbilhão de hipocrisias e falsas evidências? O temor de ser levado pela enxurrada de desenfreadas aparências e salvação pode ferir profundamente de modo a não se ter mais uma válvula respiratória. 

Indiferença e violência: questionamentos!

Indiferença e violência: questionamentos!



Quem é o outro? É apenas um EU fora de mim? Trato o outro como um espelho ou objeto ou reconheço a sua subjetividade e dignidade? Como nos vemos entre os outros? Como vemos a presença do outro? Qual o lugar do outro na minha vida? O que não sou eu é estranho ou complemento? Como reconheço o valor do outro? O outro é uma ameaça ou um estimulo? O outro provoca medo ou aproximação? Sou capaz de perceber e aceitar as qualidades ou bem dos outros?
Vivemos sem os outros? Que importância dou aos outros e o que eles vivem? Como reagimos ao diferente? Eu sou capaz de dialogar com o diverso? Qual valor atribuo ao que os outros vivem? Qual o parâmetro para julgar as ações do outros? Tenho consciência que sou o outro para os outros? Sou universal nos relacionamentos ou faço distinção e exigências?
O diferente é o mesmo que desigual? A diferença é a lei da natureza, a desigualdade é crime. Por que trato iguais como diferentes? Dou a devida atenção às pessoas ainda que sejam diferentes e diferenciadas? Aceito o que contradiz as minhas perspectivas? 
O que é a violência? O que lhe provoca? Seria reação ao diferente? Rejeição ao estranho ou que fere o meu egoísmo? Seria fruto das desarticulações a causa de provocações? Modo de se impor? Quais suas causas? O que provoca uma reação violenta?
Quais tipos de violência existem? Indireta, passiva, física, psicológica, simbólica e outras tantas.  A pressão. O uso dos privilégios. A mania de dar jeitinho. As promessas e ameaças.  A violência pode ser justa? Toda violência é condenável. Existe violência legítima? Pode se usar alguma forma de violência para se obter o bem ou o melhor?
Qual a relação entre violência e política? O estado usa de violência para conseguir seus propósitos? As leis e as sanções são formas de violência? Sem o poder o Estado conseguiria manter a ordem? Para se obter ordem é preciso poder? Quanto o poder se entrelaça com a força? E o uso da força, seja ela como for, não se manifesta como violência? Como classificar tempo de paz, seria apenas ausência de guerra? Guerra e paz são excludentes ou complementares? Seria preciso guerra para se conquistar a paz ou essa é desejo natural das pessoas?
Como superar a natural violência e tendência à indiferença que existe na estrutura das pessoas? Como viver num mundo competitivo sem perceber o outro como adversário ou ameaça? Como praticar o desarmamento existencial? Somos capazes , realmente, de viver o acolhimento e o diálogo?  Eis que uma esperança se abre…



O que nos sacia?

O que nos sacia?



Tudo que vem de mim mesmo ainda me deixa a desejar
E essa insatisfação tem alguma razão aparente?
Cada ponto de chegada demarca outra saída
A sensação de completeza dura apenas momentos
O que nos sacia vem de fora!


A fome de presença, a sede de afeto, o desejo de reconhecimento
De onde vem uma possível resposta?
Vejo que eu não me basto a mim mesmo
O que pode calar esse inquietante busca?
O que nos sacia nãos vem de fora



Interpelações sobre a felicidade
Reticências sobre as conquistas
Especulações sobre o infinito
Autotranscedência  apesar da falência
O que nos sacia vem do Outro


Consciência dos próprios limites
Incertezas sobre o depois
Fragmentações e divisões internas
Senso de absoluto mesmo na decadência
O que nos sacia?


Pra se pensar ....

Desespero anunciado

Desespero anunciado Para que essa agonia exorbitante? Parece que tudo vai se esvair O que se deve fazer? Viver recluso na pr...