Desafios

Desafios



Qual o maior desafio de hoje?
A multiplicidade de pensamento que desemboca no relativismo ou o subjetivismo moral?
A intolerância disfarçada de permissivismo ou a ditadura mascarada de globalização?
Seria a perda da hegemonia das autoridades ou a ausência de responsabilidades?
Qual desafio enfrentar primeiro?
A negação de Deus e a banalização do divino ou a indiferença que justifica as desigualdades?
O silêncio de quem teme represálias ou os métodos atrozes de quem quer dominar?
A corrupção que dessacraliza os valores ou a busca desenfreada de vantagens?
Que desafio devemos repensar?
A desarticulação de um modesto futuro ou o medo da instabilidade?
A  desventura de acreditar ou se embriagar com o imediatismo?
O abstracionismo da linguagem ou o barbarismo da diferenciação?

Desafios….

E qual a razão da intolerância?

E qual as razões da intolerância?



Por P. Jorge Ribeiro

Quais as razões da intolerância?
O que leva alguém a se enveredar pelo caminho da intolerância, se a sua mesma natureza precisa ser tolerada continuamente? É esse um dado que a natureza humana é descontínua e que muitas vezes quer voltar aos princípios ou modos de antes? Constata-se que a mesma estrutura humana não é linear, muitas vezes estranha a si mesma. E aqui surge outra pergunta: alguém que se torna intolerante, incapaz de reconhecer os valores do «outro» e ainda forja razões para tal intolerância, pode-se dizer que seja alguém que leva a sério a sua existência e tem consciência do dinamismo interno que essa mesma vida comporta? 
  1. O absolutismo político
O estado deve dialogar com seus «súditos», tanto na elaboração e na execução das leis, por meio dos representantes do povo, como também deve escutar esse povo quando ocorre mudar sistema de convivência e de valores. Ninguém há o direito de impor a sua vontade e os seus valores a ninguém, nem mesmo um estado, salvo que esse seja totalitário e absoluto, o que foge ao desenho de uma sociedade democrática, aberta, porque se retém que somente um governo e um estado democráticos podem conduzir ao bem comum de maneira tolerante e pacífica. A essa altura se coloca outra pergunta: A que ponto, no mundo da política, tolerar seja respeitar devidamente? Como fomentar o acolhimento intrínseco à tolerância quando a própria lei não ajuda?
 O absolutismo, pelo seu método, que muito é de força, de domínio e de constrangimento leva facilmente à violência e à guerra, a pior de todas as pragas e porque a lealdade ao partido político absoluto e à sua ideologia é demasiado rígida e gerou grande intolerância, no passado e continua gerando no presente. Isso se pode ver onde se experimenta o sistema do partido único, mas também em sistemas democráticos que o presidente ou primeiro-ministro dita as regras e coage o parlamento a aprovar as leis de seu interesse. 
  1. O dogmatismo religioso
Joga fortemente nessa luta pela pureza e uniformidade da crença a ambiguidade humana, a variação, pois na maioria dos casos outros interesses invadem o que seria apenas o desejo de manter a integridade e a ortodoxia da fé, sem a busca de uma ajuda moral para o bem-estar dos adeptos. O dogmatismo, como qualquer outro sistema totalitário, acarreta consigo domínio, força, ameaça e intolerância. A obstinação em manter certo princípio religioso leva à exclusão, ao indiferentismo e até à violência. Tendo isso em vista que dizemos ser condenável a presunção de quem afirmando a própria fé entra em contradição com essa, ou seja, quando vai se negando a liberdade e a livre aderência das pessoas.

  1. O sistematicismo intelectual

A razão precisa ser dialogal, assistemática para poder capturar a essência da natureza do homem, que é mortal e frágil. A atitude coerente da razão dessa natureza volúvel e débil é a ignorância, o diálogo e a dúvida. Assim, ao invés de pretensiosamente afirmar, negar e sistematizar uma coisa, a razão deve se colocar em atitude de questionamento e se perguntar: «que say-je»?(Montaigne). Quer dizer, a razão deve oferecer espaço para que a verdade se revele e se mostre e não aprisioná-la em declarações e em sentenças de pura elaboração mental.
Uma ciência ou uma razão que se caracteriza pela sistematização e não prioriza a fluidez que caracteriza a natureza humana tende a se desaguar numa perversa vontade de domínio e de inversão da representação da verdade, dado que o que sustenta a mesma ciência e a sua certeza é a própria fragilidade humana e não a irrefutabilidade de seus argumentos. Somente a arrogância, a vaidade e a presunção podem levar que a razão humana tenha a pretensão de rotular a verdade por meio de sistemas, sem levar em consideração o outro com suas riquezas e suas necessidades; demasiada identidade acaba por se transformar em barbarismo e esse excluir e se fechar em si mesma da razão se versam numa atitude de intolerância, principalmente no tocante a outras possibilidades de conhecimento e de investigação.

  1. O indiferentismo antropológico

A tolerância é uma exigência para uma convivência sem uma discriminatória hierarquia, quer dizer, que cada qual vale pelo que é, pelo fato se ser pessoa, não pelos cargos que se ocupa, pela cor da pele que se tem, pela nação a que pertence ou pela condição sexual ou social; assim sendo, o papel da filosofia, como ciência da vida, é de formar o homem em grau de construir o mundo externo, de conquistar a própria liberdade, sem ser indiferente ao bem que o outro pode oferecer e sem a doentia pretensão de ser o melhor. O indiferentismo também se manifesta pela mesmice e pela falta de interesse pelo outro. Quando se confunde o que é comum com o que é normal, começa-se a correria para acatar o critério da maioria como se fosse verdade e bondade. Esse menosprezar o que é diverso pode levar a criar substratos classistas onde a violação da natureza vem traduzida como progresso.


  1. A banalidade sociocultural

A sociedade moderna é uma sociedade eclética, multirracial, multicultural e, sobretudo, multifacetada e deformada, isto é, bastante dividida, agnóstica, especializada e relativista, onde o «aparecer» e o «ter»  querem  constituir a meta e o valor; isso leva o comum a ser banal, não levar as coisas a sério, pouco se pôr perguntas sobre o porquê da vida e do seu senso, dado que se impera um triunfo do haver vantagem sobre tudo e a todos. 
 Essa barbárie sociocultural é traduzida em ausência de critérios e de parâmetros para a condução da civilização, ou seja, a confusão ou errada compreensão da tolerância pode levar a uma maneira superficial de viver, desrespeitando a diversidade de julgamento, onde se banaliza tudo, dando o mesmo peso a todas as coisas e a todas as ações, e, ao extremo, justifica-se e se aprova tanto a guerra, como o roubo, a corrupção ou a dedicação de quem busca fazer o bem em prol dos mais necessitados. Ser tolerante é ser capaz de dialogar e de acolher o outro, ainda que diverso, não é deixar correr ou ignorar as consequências das ações.


Conclusão:


Somos incapazes de conviver harmoniosamente com o que é diverso? Por que o distinto causa tanta repulsa, tanto animismo? Por que tentemos a afastar ou diminuir o que não é segundo os nossos critérios? Por que o que não é do nosso domínio causa tanto pavor? Será que somos assim incapazes de conviver, respeitosamente, com quem não somos nós? Por que essa fixação de querer reduzir tudo a mim ou aos meus critérios? Esse fechamento é que leva à intolerância. O itinerário que leva à intolerância é o medo da perda da própria hegemonia e do que o outro pode fazer comigo e com o que tenho e sou. O caminho da tolerância é o respeito pela igualdade e o reconhecimento da mesma dignidade ao outro que se está diante de mim. O outro não se reduz a mim, nem a meus desejos ou a meus interesses. O outro é sempre diferente e como tal deve ser acolhido, respeitado e valorizado.

Comemorar os defuntos?

Comemorar os defuntos?



Isso mesmo, a celebração litúrgica diz: comemoração dos fieis defuntos. Não é uma cerimônia de lamentações ou de choradeiras. É uma celebração da esperança, da confiança no Deus para quem tudo vive. E para os mais puritanos e xiitas da fé, essa celebração nasceu no âmbito pagão e somente com o tempo se cristianizou. Algumas culturas e tradições fazem desse dia um dia festivo, com bandas e doces, pois é essa a perspectiva que os irmãos defuntos estão caminhando, ou seja, ruma à ressurreição. Basta lembrar a celebração dos mortos que ainda existe no México e que já era celebrada pelos Maias, Astecas, Toltecas, etc.
Já faz alguns tempos venho me questionando: por que essa trilogia de bruxas, defuntos e santos?  Por que será que a tradição saxônica inseriu essa festa do “halloween” nas mediações da festa dos santos e dos defuntos? Pura coincidência ou por que são todos seres de outro mundo? Não tem nada de comum entre essas três comemorações? Qual o ponto de convergência entre essas três categorias? Ousando mais: são apenas lembranças que trazemos e não passam de lendárias historias? Para quem esteja achando que estou divagando: “Halloween” é um nome que deriva de "All Hallows' Eve"."Hallow" é um termo antigo para "santo", e "eve" é o mesmo que "véspera". O termo designava, até o século 16, a noite anterior ao Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro. No século XVIII passou ser mais uma celebração do “Samhain”, o Rei dos mortos.
A nossa vida não termina num túmulo. Esse é o teor da celebração dos fiéis defuntos. As tradições pagãs e cristãs acabaram se misturando. Quero dizer: o túmulo não pode aprisionar a pessoa. Feitos para a eternidade, nada e nem ninguém nos segurará. Essas realidades denotam o desejo humano de eternizar a vida, de não se esvair pela morte. O mundo pagão eternizam seus fantasmas, os crentes perpetuam a memória dos seus entes queridos e o cristão se projeta na comunhão dos santos.
Longe de mim querer equiparar essas três realidades, mas não podemos ser indiferentes que são três dimensões que se afloram na consciência ou na tradição das pessoas e que fazem parte do nosso cotidiano. Toca-nos a missão árdua de distinguir para poder escolher o caminho que nos representa melhor e exorcizar do imaginário coletivo que existem espíritos pairando e influenciando nossas atitudes corriqueiras. E para os desavisados históricos, essa festa que hoje se banalizou e permite brincar com nossos medos, não é coisa americana, nasceu no seio da igreja, quando se acendia fogueira para banir a peste negra e expulsar a feitiçaria.
A cada qual o que lhe é próprio, sendo assim não confundiremos os papeis e as tradições. Desse modo, às bruxas os doces, aos defuntos a oração e aos santos a imitativa devoção.


A morte é obscena?

A  morte é obscena?
 (P. Jorge Ribeiro)


A morte é um tabu, ninguém quer falar dela e sobre ela, é algo proibido, quase pornográfico. Os funerais são como que espaços misteriosos, sagrados e proibidos ou evitados ao mesmo tempo. A morte é escamoteada de tantos os modos: desde a indiferença, o apego, a divinização, o distanciamento, a maquilagem e por quê? Somos incapazes de lidar bem com a vida? A morte é esse monstro todo porque ela é terrível mesmo ou por que somos insensíveis ao que acontece ao nosso derredor? Onde está a nossa consciência da morte? Ela faz parte da nossa história, queiramos ou não. Não se trata de viver atrelado à morte, de fazer dela nosso projeto ou nosso amuleto, mas aceitar a finitude da própria existência e a condição contingente da realidade criada. Entre o interesse mórbido, doentio e obcecado pela morte e a mania desenfreada de ignorar a sua presença que invade sem pedir licença ou concessão, a presença da morte deve ajudar viver melhor (Montaigne) e dar um sentido valorativo à vida e não se apegar as coisas transitórias (Evangelho).
A morte causa vertigem, a angústia ou náusea (Sartre)? Correr da morte, negá-la, afugentá-la, dissimulá-la, por acaso afasta ou evita que ela alcance alguém? Não nos damos conta e morremos continuamente: as células se esvanecem, as rugas chupam a vitalidade, o tempo obscurece a visão, os movimentos se ralentam, os reflexos se sombreiam, o esquecimento se torna hóspede assíduo, tudo isso é sinal da nossa morte cotidiana. E as pessoas que conhecemos e já não veremos mais? Tudo o que começa a existir, ao mesmo tempo começa a morrer. É um absurdo? Pode ser. Essa visão não é porque se tem a vida como um direito? E se essa vida fosse percebida como um dom, não mudaria de algum modo, a sua perspectiva e a sua expectativa? Que a vida é prenhe de morte e a morte é carregada de vida é inegável, e como lidar com esse juízo de facto sem perder a espontaneidade e descontinuidade que a existência porta consigo mesma? 

A morte é assunto indesejado, mesmo para aqueles que a trazem no coração, mesmo para aqueles que respiram seu hálito e para os que vivem como se ela nunca os fosse atingir. A morte pode despertar nossos sentimentos mais autênticos e não permitir que os espaços da ausência gerassem o desconforto da solidão e do desencanto. Não sei por que tanta perplexidade diante da possibilidade da morte, dado que “Ninguém morre antes da hora. O que deixais de tempo não era mais vosso do que o tempo que se passou antes do vosso nascimento; e tampouco vos importa” (Montaigne), ou seja, não há espaço para máscaras e hipóteses, pois cada ser vivo transporta no seu âmago a inevitabilidade de perecer. Que fazer? Acumular os cadáveres, esconder os mortos ou transferir esse imperativo para outro tempo? A morte não pode ser vivida, mas pode ser encarada. A morte pode ser ensejo para viver melhor ou para desprezar a vida, o que não se pode olvidar é que a morte mortal é a decadência de não ter um sentido para o qual se vive ou se morre. A causa  toda essa complexidade que revestimos a morte ela se tornou deveras obscena. 

Eclético

Eclético


Sou eclético mesmo e gosto disso, eu não me identifico com rótulos e mesmices. Um dia estou perambulando em Roma e no outro vagueando nas grutas da Lapa. Pouco faz celebrei nas arrojadas capelas vaticanas e hoje debaixo de alguma árvore.
Ainda tenho vivo o passeio nas galerias fiorentinas e não me importo  de trilhar as estepes sertanejas. Passo manhãs debatendo inclusão social, novas tendências filosóficas e tarde visitando idosos, doentes e excluídos e na noite cantando benditos e novenas.
Tudo faz parte de mim, sem esquizofrenia e sem distinção, sinto-me eclético e sem confucionismo, pois acredito na distinção e não na separação.
Gosto de endossar um Armani, usar apple e não ligo de pechinchar no mercado popular. Fico bom tempo em contato com o Live, facebook, mas também jogando pedras no rio. Misturo Platão, Montaigne, Tomás com dona Zetinha e seu Toinho, sem prejuízos e sem desfoques.
A vida é assim mesmo: ideal e muito inculturada, tanto focada nos conceitos e mais escancarada nos abraços. Por isso me sinto eclético, defensor da solidão e inserido na multidão; sem pretensão de ser perfeito, mas de saber circular em diversos lugares.
Ser eclético é trabalhar com a inclusão, sem ser enciclopedista, mas buscando de tudo um pouco: poeta, santo, ingênuo, piadista, pensador e louco!
A minha felicidade? Saber que os desejos são possibilidades e não imposições. Convivo sem preconceito com a abundância e também com a necessidade. Somos assim, nada nos satisfaz mesmo. Quero um futuro tranquilo e sereno, mas busco viver sem arrogância o presente.

Sou eclético, mas nem sou muito fã do ecletismo. Contraditório? Pode ser que seja, mas ao mesmo tempo que sou religioso , também sou cético, no mesmo instante que sou família, sou desconfiado. Não vejo contradição. Sou sem frescuras e fissuras, mas sou seletivo e chato também. Que é tudo isso? Cada um é o que é e basta, com suas vicissitudes. Muitos tendem a mascarar e passar uma imagem diversa de si e eu somente me sinto mais livre porque não pretendo nada e não espero nada também, apenas vou me construindo e sem querer impressionar ou agradar ninguém. Isso é ser eclético? Sei lá, mas importante que estou bem assim mesmo.

Dislexia

Dislexia



Tanta dificuldade em compreender o obvio,
Será mera distração?
Quanto descaso pelo outro,
Será pura acomodação?
E essa desenfreada busca de vantagem,

Parece um surto de dislexia!

Blefe

Blefe




Traço aqui umas linhas ilógicas e superficiais para expressar o que faz tempo eu queria mastigar. A vida é mesmo inacreditável. Ela surpreende sempre. Carrega a nossa vivência uma ambiguidade que se parece mais com devaneios do que com realidade. Mas é essa a nossa índole de ser no mundo e de ser dependente dessa mundaneidade que nos circunda.  Que poderei dizer então, que sou blefe, essa existência medíocre e ridícula, tudo parece não ter sentido e ao mesmo tempo que parece estarmos longe, já estamos de novo em volta, estamos já por perto. Essa mistura desnecessária de alegrias e tristezas, essas canções que as vezes soam encher de entusiasmo a caminhada, mas em outros momentos semelhantes provocam cansaço. Que é isso, essa desaceleração de momentos alternados de invenção e de cruel monotonia. Essas histórias que fazem memória  de um passado que não é meu, pois tudo se esvanece, isso não passa da  construção de uma narrativa fictícia, não sou o que acho que sou e ainda menos o que os outros dizem e pensam de mim, pois eu sou como a vida é, um blefe, uma mentira costurada com arranjos de veracidade. O que fica depois de tudo? O que nos espera depois do nada? Para que tantas fadiga e murmurações onde o imprevisto tem o desfecho final? Para que se importar com tantos detalhes quando é o nada e sua simplicidade que nos acolhe em seu eterno seio? Esperança, fé, futuro? Acredito em tudo sim, e isso me faz ainda perambular nesse imenso horizonte sem destino, mas qual garantia temos do devir? Do lado de cá posso ficar tranquilo se nada sei do lado de lá? Não posso ter medo de pensar essas variedades ou me refugiar numa promessa sem padecer as consternações de uma vida que somente o agora é presente.

Pra se pensar ....

Desespero anunciado

Desespero anunciado Para que essa agonia exorbitante? Parece que tudo vai se esvair O que se deve fazer? Viver recluso na pr...