SILENCIO EXISTENCIAL

Silêncio existencial



Cada um é o que é, e não pode fugir dessa facticidade. O que faz que a nossa vida seja maravilhosa é o seu mistério. Somente pode ser feliz que encara a vida com estupefação, entusiasmo e desejo de descoberta. Se é verdade que não podemos mudar a nossa estrutura, também é verdade que podemos mudar o nosso modo de lidar com a realidade. As vezes a dureza do presente nos entristece, mas a descartabilidade do tempo nos permite mergulhar em novas aventuras e embrenhar por outras descobertas que permitem novamente sonhar, respirar e buscar. O nosso paradoxo se assenta entre a impossível felicidade e a investigação de um possível recomeço. As perguntas, as interrogações e as reticências são pistas que apontam para uma liberdade que se concretiza na responsabilidade e na inconstante verdade de hoje.  E o que dizer do vazio? Por que esse descontinuo sossego seguido de um continuo silêncio? Questões de uma natureza ferida que acredita poder se salvar eximindo-se do território do Absoluto…. No momento resta o colocar-se em caminho!
Podemos fingir que não notamos as ausências e as necessidades, podemos até nos enganar e achar que somos felizes, mas o que existe é uma acomodação e aceitação da própria condição de ser itinerante, errante e mendigo, como coisa normal e como dado insuperável da existência humana. Por isso, muitos se alienam em bebidas, poderes, religiões, drogas, seduções, maldades e também em ativismos, para não se pensar na própria condição. É muito mais fácil ser ingênuo ou disfarçar do que pensar, assim muitos morrem sem mesmo ter tentado aprofundar a dinâmica da própria vida. Confundimos, tantas vezes, realização ou satisfação temporária  como modo de ser, ou seja, muitos acreditam que o bem-estar seja felicidade e ignoram as perguntas do próprio coração.
Tantos de nós vivemos como que embriagados com a própria situação e reduzimos o próprio mundo em possibilidades de concretizarmos os sonhos e nos esquecemos da ironia que é o nosso mesmo estar-no-mundo; quantas pessoas preferem ser banais e superficiais a se colocarem a pergunta sobre o futuro ou o amanhã? Quantos decidem por ignorar que a doença, o acidente e a morte são paisagens presentes no horizonte de todos e de quaisquer um? Mas também muitos se amedrontam e se paralisam diante da fatalidade do que existe e passam a vida em brancas nuvens. Diversos de nós perdemos a noção do sentido da vida e transformamos  as experiências em atos fugazes e desesperados de satisfação. Há uma corrida desenfreada para garantir um lugar ou um estado, quando apenas existem possibilidades e hipóteses. Perdemos tempos em cogitações pretenciosas e deixamos escorrer a brisa que pode nos tirar do desengano da caducidade do que se pretende ser. Morremos para conquistar o nosso espaço e atropelamos os átimos de felicidades que poderíamos gozar e por isso mesmo nos suicidamos inconscientemente e pensamos que buscamos a os nossos significados. Cada um é o dicionário de si mesmo, toda pretensão de conhecer o outro é apenas a tentativa de reconhecer-se em algo ou em alguém.
Sentimos dessabores e anulamos seus efeitos com outros gostos, e isso é ser contente? Não ter desavenças ou divisões externas garante a serenidade de alguém? Procurar, conquistar e manter a estabilidade e o sucesso pessoal, seria isso felicidade? Proceder de modo organizado, harmônico e racional e ter um conceito positivo e alto diante dos outros, acaso seria isso o ideal de uma vida humana? Temos medo de sermos nós mesmos e queremos ser anjos, deuses, demônios, bestas e até máquinas e assim barbarizamos o que não controlamos e nos sentimos mais aliviados, e isso é praticar a liberdade? A pressa que temos de sanar os problemas e construir proteção, seria isso a lógica da independência de ser? Tantas vezes queremos impor nossas loucuras e neuroses aos outros para não nos reconhecermos deficientes. O futuro, porém, continua aberto, e isso se ele existir. E se posso ser útil e viver com dignidade, já transcendo o nada  e respiro o odor de eternidade!

Jorge Ribeiro

Julho 2014

Viver de braços abertos

VIVER É VIAJAR


Minha despedida

Não é um adeus definitivo...
preciso de tempo
vou sair pelo mundo!
vou viajar, estudar.
vou curar as feridas da alna...
e também do coração...

Vou analisar o mundo, os astros..
Mas levo todos vocês em meu coração
Vou deixar a porta aberta para quem quiser
visitar-me e deixar o seu recado...
Onde quer que eu esteja
sempre que der eu passarei para lhe visitar

Sou errante...viajante do tempo
Eu sou como o vento
Apenas eu passo
Se sentires um leve aroma de jasmim...
Serei eu que estarei chegando
Pra matar minha saudade...
Dos amigos que aqui deixei!

Vou passar na Argentina
Vou dançar um tango de Gardel
Vou levar meu violão
Vou rimar meus versos
Vou ouvir meu coração
Vou apreciar a natureza
Vou observar o colorido das flores
Vou melhorar meu visual
Vou aos anjos agradecer...

Não é um adeus...Apenas uma partida
Na vida precisamos inovar novos caminhos...
E eu ainda sou um mero aprendiz....

Desconhecido

O PARADIGMA DA COMPLEXIDADE


OS MÉTODOS
O PARADIGMA DA COMPLEXIDADE 



Edgar Morin filósofo, sociólogo, epistemólogo, é um pensador contemporâneo transdisciplinar, diz: Não sou daqueles que têm uma carreira, mas dos que têm uma vida (...) Passei ao largo dos amores, ainda que não tenha podido viver sem amor: diria até que, sem alta combustão amorosa, eu não teria jamais tido coragem de escrever O Método. O Prof. Morin não escrevia de uma torre que o separa da vida, mas de um redemoinho que o joga em sua vida e na vida. A aventura do Método preenche sua vida durante três décadas e meia, de 1969 a 20000. Trata-se de um caleidoscópio, uma empreitada epistemológica, uma obra estendida em seis Tomos, em que o Prof. Morin constrói a partir da derrocada do modelo iluminista do fracionamento da realidade para entendê-la, um método que procura elucidar a profundidade do pensamento complexo, a possibilidade de um conhecimento polissêmico, um feixe, inter, multi e transdiciplinar.

Então, vejamos um quadro de cada Tomo do Método. No conjunto da obra O Método, o Prof. Morin aborda a partir do paradigma da complexidade a teoria e o método na construção do saber, do desenvolvimento da ciência. Apresenta-nos como no antigo paradigma a ciência está fechada e manipulada pela tecnologia. Segundo o Prof. Morin a teoria não é conhecimento, ela permite o conhecimento, estando assim a teoria à beira da degradação, achatada e simplificada. Isto decorre por três motivos, constata o Professor a teoria torna-se utilitarista, conservando aquilo que é operacional, desta maneira passa de logos a técnica; a teoria torna-se doutrina e fecha-se cada vez mais à contestação; e ainda a teoria se vulgariza e ?difunde-se à custa desta simplificação de consumo. Aqui mora o perigo que consiste em esvaziar a complexidade.

Assim, o Prof. Morin deixa claro que não há teoria sem método,a teoria quase se confunde com o método ou, melhor, teoria e método são os dois componentes indispensáveis do conhecimento complexo. O método torna-se fundamental pelo fato de organizar a teoria, desta maneira ela pode evitar a retroação, ou seja, a simplificação da teoria, o método guia a razão. Notamos assim, que é impossível desvencilhar o método da teoria, pois toda teoria é teoria na medida em que apresenta um norteador que organize o pensamento, no caso o método, daí quanto mais claro e objetivo apresentar-se o método maior a possibilidade de não banalização da construção teórica. Existe na complexidade uma racionalidade aberta, que reconhece que não há ciência pura, no entanto, esta possibilita uma teoria do sujeito no cerne da ciência, o que abre as portas para uma crítica construtiva do sujeito pela epistemologia complexa, trazendo assim o esclarecimento pela ética.

A obra, o Método se distancia do que Descartes propôs como método. Enquanto este o cerne da questão é a certeza indubitável, o Prof. Morin coloca as possibilidades no horizonte da incerteza, da diversidade, da complexidade que é o homem. Assim o homem e o mundo não transcendem um ao outro, porém se multiplicam se modificam, se transformam, desaparecem e aparecem.

Então, em síntese, O método se apresenta em seis temas, são seis entradas abordando a complexidade humana. O primeiro, a natureza da natureza: formalmente, apresenta uma epistemologia de complexidade. Trabalha a relação entre ciência do homem e ciência da natureza, num contexto de complexidade. "A complexidade é um progresso de conhecimento que traz o desconhecido e o mistério. O mistério não é somente privativo; ele nos libera de toda racionalização delirante que pretende reduzir o real à idéia. Ele nos traz, sob forma de poesia, a mensagem do inconcebível". O segundo, a vida da vida: Centrado na questão do homem, destrona o antropocentrismo: discute a vida existente antes do homem e o próprio homem como produtor e produto de sua espécie. "Ninguém pode basear-se, hoje, na sua pretensão ao conhecimento, numa evidência indubitável ou num saber definitivamente verificado. Ninguém pode construir seu conhecimento sobre uma rocha de certeza. A minha pesquisa de Método parte, não da terra firme, mas do solo que desmorona, adverte o Prof. Morin. O terceiro, o conhecimento do conhecimento: A grande questão é o reducionismo, a fragmentação do saber. Para entender e ser num mundo globalizado, de culturas e interesses tão díspares, o autor evidencia a necessidade de religar as ciências biológicas, físicas e humanas. Os progressos do conhecimento aumentam o paradoxo da separação/comunicação e do fechamento/abertura: quanto mais a organização cognitiva torna-se original, singular, individual, fechada sobre si mesma, separada do mundo, mais está apta a tornar-se objetiva, coletiva, universal, aberta e em comunicação com o mundo. Em paralelo, quanto mais o homem acentua a sua diferença e a sua marginalidade em relação à natureza, mais aumenta as possibilidades de conhecimento da natureza, reflete o filósofo. O quarto, as idéias: habitat, vida, costumes, organização: serve de introdução ao problema da reflexão no mundo contemporâneo - o livro é denso nos aspectos com que aborda as idéias: a ecologia das idéias o equilíbrio entre as idéias que o sujeito desenvolve e as que a cultura, a sociedade, lhe oferece, das quais se apropria e é apropriado por elas; a noosfera vem a se constituir na relação dicotômica e conjunta de autonomia e dependência da vida no pensamento; a noologia estabelece as relações entre a linguagem e a lógica, sua complexidade.. O quinto, a humanidade da humanidade: a identidade humana: é a síntese de uma vida. Todos os temas das obras anteriores de Edgar Morin aparecem reunidos e aprofundados neste quinto e decisivo volume, com uma configuração e um arranjo inteiramente novos. Este livro aborda o destino da identidade humana, em jogo na crise planetária em curso. O Prof. Morin trabalha as condições em que a identidade humana é construída; suas interrelações social, cultural e política, o contexto histórico e planetário. Quem é o homem na relação com o outro e consigo. A indagação quem somos é inseparável de onde estamos, de onde viemos, para onde vamos. Conhecer o humano não é expulsa-lo do universo, mas situa-lo. Como sempre, este trabalho rompe com a fragmentação do conhecimento nas ciências humanas e propõe uma verdadeira reforma do pensamento. O Professor convida-nos a pensar a vida na vida. O sexto Tomo traz o tema da ética: Este sexto e último volume de O Método constituem o ponto culminante da grande obra do Prof. Edgar Morin, aqui faz da complexidade um problema fundamental a ser abordado e elucidado. Neste sexto tomo, o mais concreto e talvez mais acessível, o Prof. Morin parte da crise contemporânea, ocidental, da ética para voltar a ela, ao final, depois de uma análise antropológica, histórica e filosófica do problema. A ética permanece ligada a uma filosofia do espírito. Para a construção de sua teoria ética, o filósofo e sociólogo parte de um conceito de inspiração kantiana, definindo a ética como exigência moral auto-imposta. Mas, em lugar dos imperativos provindos da razão prática (Kant), na Ética da complexidade, o imperativo provém de três fontes, uma fonte interna, análogo à consciência do sujeito; uma fonte externa, simulada pela cultura, pelas crenças e pelas normas pré-estabelecidas na comunidade; e de uma fonte anterior própria à organização dos seres vivos e transmitida geneticamente. A complexidade apresentada por essa ética nos exige uma reflexão sobre quão concernente são as escolhas morais que temos de fazer em nosso cotidiano.

A leitura do Método, do paradigma da complexidade, é um excelente meio para fazer diminuir miopias e cegueiras e abrir a esperança a novos horizontes.A busca do esforço cósmico desesperado que, no ser humano, toma a forma de uma resistência à crueldade do mundo é o que eu chamaria de esperança.

Fonte:
MORIN. Edgar. O Método 1, 2, 3, 4, 5,6 (Coleção). Editora Sulina, 2005.
MORIN. Edgar Meus Demônios. Ed. Bertrand Brasil, 2000.

A PAIXAO ACONTECE

A PAIXÃO ACONTECE


Arte de Marc Chagall

Se você recusou sua rotina, deixou de fazer aquilo que mais gostava em nome de alguém, torrou seus bens, abandonou os amigos e os prazeres mais fundamentais, isso não é amor, é paixão.

A paixão é uma fatalidade, o amor é uma escolha.

A paixão é egoísta, o amor é generoso.

A paixão é renúncia, o amor é recomeço.

A paixão arrebenta, o amor adapta.

A paixão é confinamento, o amor é abrigo.

Não há paixão pequena, paixão simbólica, paixão discreta: é grandiosa no início e escandalosa no final.

Não recomendo, muito menos desaconselho: é experiência para os fortes.

Nada do que viveu antes terá sentido, nada do que possa viver depois terá sentido. Conjugará interminavelmente o presente do indicativo.

Atingirá um extremo emocional perigoso: você passa a ser do outro em tempo integral. Conhecerá sua pior crise de nervos, seu mais fundo estresse emocional, seu mais absurdo esgotamento da memória, sua mais humilhante falência financeira.

Uma vez apaixonado, você rejuvenesce 10 anos em 10 horas. Mas, uma vez desapaixonado, você envelhece 10 anos em 10 horas.

A paixão ou é imensa, ou não é. Ela não pede desculpa, não negocia: equivale a uma dependência química em seu estado mais selvagem.

É o equivalente ao sequestro de uma vida. A própria vida. Você é o sequestrador e o refém ao mesmo tempo.

Não há desconto, adiamentos, pechincha. A paixão exige pagamento à vista, execução sumária.

Nunca vi nenhum apaixonado transferir compromisso para o dia seguinte, ele somente antecipa.

Não é que a paixão seja rápida, é devastadora, não sobra coisa alguma para continuar.

O apaixonado não abre negócios, mas fecha portas. Não areja a cabeça, não tem grandes ideias, não combate preconceitos, emburrece progressivamente, a ponto de só ter um número para ligar e um lugar para ir.

Ele não tem sangue-frio, não raciocina, não elabora planos, não arruma álibis.

A paixão é um crime malfeito, facilmente descoberto.

Os envolvidos desprezam o mundo, não se importam se estão sendo vistos, se beijam em público, se são casados, noivos ou recém-viúvos, se serão criticados pelos vizinhos e familiares.

O apaixonado joga tudo para o alto e não fica para segurar nada.

Ele não tem discernimento, não lê jornal, perde sua capacidade de decidir sobre a trajetória.  Apresenta a superstição de um velho, a intuição de uma criança.

É um idiota sábio. Idiota porque não se defende da tristeza, sábio porque não se protege da alegria.

Não existe mais bom e ruim, certo e errado, esquerda e direita. Não tem sentido julgar. Não tem como se orgulhar do que foi realizado, muito menos se arrepender.

Você muda de personalidade, larga trabalho, descuida da família para se dedicar inteiramente a não pensar e somente sentir.

Não podemos nem dizer se a paixão ajuda ou atrapalha, ela acontece. É uma sorte azarada.

JIM MORRISON

Poesias de Jim Morrison

Jim Morrison... Ouvindo esse nome automaticamente lembramos do The Doors. De uns tempos pra cá, ao ouvir o nome Jim Morrison me vem em mente suas poesias e depois, claro, as músicas magníficas dos Doors. Jim Morrison era vocalista do The Doors, mas como poeta assinava seu nome de batismo: James Douglas Morrison.
Muitos acham que Jim era apenas um vocalista drogado, mulherengo, bêbado e totalmente locão; O filme de Oliver Stone (que era seu colega na Universidade) ajudou muito a difundir essa imagem, diga-se de passagem. Só que a maioria das pessoas não conhecem suas maravilhosas poesias. Jim era culto, sensível, sempre vivia com um livro, recitava poesias durante os shows dos Doors, era cineastra, ensaista, escritor... Um Xamã da década de 60! Ele estava á frente do seu tempo e ficava frustado por não reconhecerem seu trabalho.
Suas influências vão de Rimbaud, Honoré de Balzac e Nietzche (suas teorias sobre moralidade ,estética e apolínea-dionisíaca, tiveram presença marcante em toda vida e obra do Jim).
Como disse Ray Manzarek em uma entrevista no ano passado: "Jim foi um gênio que tocou a todos nós. Sua sensibilidade e sua inteligência estavam acima da época, mas nenhum gênio vive para o seu tempo; ele vive para um tempo futuro. O tempo de Jim viria somente 20 anos depois de sua morte".

Talvez para Jim o "ser poeta" era ser o que foi escrito por Rimbaud: "...um poeta torna-se um sonhador através de um longo, ilimitado e sistemático desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; investiga-se a si próprio, consome dentro de si todos os venenos e preserva as suas quintessências. Um tormento indescritível, onde irá encontrar a maior fé, uma força sobrehumana, com que se torna, de entre todos os homens, o grande inválido, o grande maldito – e o Supremo Cientista! Pois alcança o desconhecido! E que interessa se for destruído no seu vôo extático por coisas inauditas e inomináveis... " Jim experimentou tudo isso, desregrou todos os sentidos, apostou todas as suas "fichas"... Ele sempre estava em busca do Desconhecido, da Liberdade Livre, aliás ele sempre fora muito preucupado com a sua liberdade e isso é escancarado nas suas letras nas músicas dos Doors e nas suas poesias.
Então, como eu sou uma fanatica pelo The Doors e apreciadora convicta de toda obra poética do Jim, deixo aqui muitas poesias dele, pois não é muito fácil encontrar seus livros traduzidos aqui no Brasil, algumas letras dos Doors de sua autoria e algumas frases do meu querido Lizzard King!
"A verdadeira poesia não diz nada, apenas destaca as possibilidades. Abre todas as portas. As pessoas podem atravessar aquela que se lhes ajusta. ... e é por isso que sinto pela poesia este apelo tão forte – porque é eterna. Enquanto houver pessoas, elas podem lembrar-se de palavras ou combinações de palavras. Mas nada pode sobreviver ao holocausto a não ser a poesia e as canções. [...]. Se a minha poesia pretende atingir alguma coisa, é libertar as pessoas dos limites em que se encontram e que sentem".


A Celebração Do Lagarto


LEÕES NA RUA
Leões na rua & deambulando
Cães com o cio, enfurecidos, espumando
Uma besta encurralada no coração da cidade

O corpo da sua mãe
Apodrecendo no chão veronil
Ele abandonou a cidade

Foi para o Sul
E atravessou a fronteira
Deixou o caos & a desordem
Para trás
Por cima do ombro

Uma manhã ele acordou num hotel verde
Com uma estranha criatura gemendo ao seu lado.
Suada lamacenta da sua pele brilhante.

Estão todos?
Estão todos?
Estão todos?
A cerimónia está prestes a começar.

ACORDEM

AMOR NAO SE DISPUTA

Amor não se disputa


Pensando bem, podemos dizer que se alguém é pedinte, pede porque necessita. Mas algumas coisas não se deve pedir, mendigar mesmo que se esteja necessitando, ou seja, não se deve mendigar  amor, carinho e atenção. Em outras palavras, cuidado com o ridículo.
Alguém já tem enfatizado que "A paixão não é o problema. O problema é mendigar afeto. Cobrar o amor do outro sendo que eu não tenho amor próprio". Isso leva a dizer, especialmente para os carentes de plantão: Prefira sua solidão à pseudo presença de quem você precise mendigar atenção, prolongar o assunto para que o monólogo vire um diálogo, de quem prefira assuntos que não incluem você. Existem pessoas que gostam de estar com você, cujo essas sim valem a pena você compartilhar o seu tempo! Por que querer obrigar a outra pessoa a ter o mesmo sentimento que você? Por que se zangar ou se amargurar quando a outra pessoa não sente o mesmo por você?

Morro e não entendo o que leva uma pessoa a mendigar o amor de outra. Não entra na minha cabeça o que faz com que alguém seja capaz de mandar bilhetes maldosos anônimos, inventar os maiores absurdos, armar barracos ou mesmo se fazer de sonso ou sonsa pra ter ao seu lado alguém que não sente nada além de carinho e, muitas vezes, pena ou pura empatia.
Certamente cada pessoa idealiza ser a pessoa certa, mas o que pensa e o que sente a pessoa do outro lado? As vezes a paixão leva a delírios tais como: Eu queria saber tudo que você precisa, tudo que você quer. Faria qualquer coisa pra ser a sua melhor companhia: aquela  pessoa que você quer abraçar e amar quando chegar em casa depois de mais um dia cansativo de trabalho, aquela pessoa que você quer brincar e dividir as gargalhadas quando tudo está indo bem até demais, aquela pessoa que você quer apenas segurar a mão e compartilhar o silêncio quando as coisas não estiverem tão bem assim ou, simplesmente, ser aquela pessoa de quem você sente saudade quando está longe. Mas acontece que ninguém perguntou a outra pessoa quais as suas expectativas e quais os seus sentimentos?
Tem pessoas que anulando a si mesma e o próprio brio chega a recitar assim: Eu daria tudo pra ser a pessoa perfeita pra você. Eu te amaria a cada minuto da minha vida, te levaria comigo em que passo do meu caminhar, em cada batida do meu coração. Eu faria o possível e o impossível pra te fazer feliz o tempo todo, pra demonstrar o quanto você é importante e especial pra mim. Pensar ou agir assim significa rastejar ou mendigar o que somente se for gratuitamente oferecido sem sabor de felicidade. A amizade não se compra e não se impõe, acontece simplesmente!
Sabemos todos que num relacionamento sadio não se pode oferecer nada além do amor. Não vale querer que alguém goste de você pela sua insistência, ou pelo tanto que você lhe queira bem. Não se deve brigar pelo coração de ninguém! Amor não se disputa, não se pede, não se joga. Amor se conquista, sem forçar, sem chantagear e sem maltratar!
Quando alguém não lhe querer ou deixar de querer simplesmente pense racionalmente e diga: Não se culpe nem se envergonhe. Você simplesmente não me ama ou não me ama mais. É verdade que dói, mas eu entendo e tudo passa. Caso realmente amamos a pessoa, deve-se agir assim: Antes de tudo quero o melhor pra você. E, mesmo que meu mundo desabe, que me faltem até palavras ou esperanças, eu prometo que vou levantar e caminhar de novo. Um dia eu aprendo a viver sem seu amor, por mais que eu não queira aprender. A verdade é que que todo tipo de relacionamento por obrigação ou temor gera escravidão e amarguras! Seja livre, seja você!

DA MORALIDADE

Da moralidade



Poderíamos ter moralidade sem um senso de empatia? Em outras palavras, teríamos comportamentos morais sem a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro? Se tirarmos da equação a vontade do agente moral, provavelmente sim. Afinal de contas, não é porque comportamentos tenham motivações individualistas que suas consequências não possam ter resultados bons para a comunidade, ou que não sejam moralmente adequados.
Mas o que queremos saber é se, sem qualquer senso de existência dos sentimentos dos outros ― como no caso de crianças jovens, que ainda não o desenvolveram ou que ainda não têm nos estágios comparáveis ao dos adultos ―, teríamos ferramentas suficientes para saber se tal ou qual atitude é ou deixa de ser moralmente válida ou aceita. A resposta, provavelmente, é não. É assim que vemos psicopatas ou sociopatas: como pessoas que nunca tiveram ou que perderam a capacidade de entender que seu comportamento causa sofrimento nos outros, apesar do óbvio prazer que lhes proporciona.
Com o avanço dos estudos do cérebro, hoje sabemos que grande parte do que consideramos empatia tem a ver com o nível de um hormônio chamado ocitocina. E o mais interessante é que a sua função primordial não é essa. Originalmente, a ocitocina é liberada, nas mulheres, durante as contrações uterinas do parto e durante a ejeção de leite nos anos de amamentação; já nos homens, é principalmente liberada durante o contato físico com sua prole.
Em síntese, é direcionada aos filhos, mas também tem importância em parceiros de longa data. Trata-se, portanto, de um belo recurso biológico para que cuidemos das relações duradouras e da descendência que delas resulta. Mas não é novidade que temos afeição especial pelos familiares mais próximos ― é uma estratégia que nos garante bons resultados, dada a reciprocidade e a segurança resultantes. Nesse círculo mais íntimo, é possível ver as maiores atitudes consideradas altruístas, bem como a proteção familiar que beira o nepotismo.
A empatia seria, então, a expansão desse carinho dedicado somente aos familiares próximos para outros membros das aglomerações sociais. Por isso, aliás, é que estudiosos contemporâneos tendem a dizer que os conflitos mundiais tendem a diminuir conforme expandimos nosso círculo afetivo, fato acelerado pelas relações de comércio da economia globalizada e pela crescente revolução das comunicações, que contribuem para que tenhamos melhores informações sobre os outros, tirando-os da lista de inimigos e de revolta preconceituosa. Hoje, podemos ter, com relativa facilidade, contatos e negócios com pessoas dos mais diversos lugares do planeta.
Ao isolarmos a molécula de ocitocina, poderíamos, em tese, usá-la para termos resultados mais empáticos em todas as pessoas. Bastaria encontrar alguma forma de inseri-la em nosso organismo sem maiores efeitos colaterais. Como consequência, seríamos todos mais empáticos e tenderíamos a escolhas moralmente mais adequadas, por considerarmos os outros como variáveis importantes para a resolução de dilemas. Há, no entanto, desdobramentos desse tratamento que, como qualquer outra inovação médica ou tecnológica, geram problemas filosóficos.
Um dos primeiros poderia ser o uso heterônomo da substância. Poderíamos impor o seu uso ou fazê-lo sem o consentimento do paciente? Afinal, se uma das causas de crimes graves por sociopatas ou psicopatas é a insuficiência de ocitocina, não seria mais fácil medicá-los para que possam conviver normalmente em sociedade? Seria moralmente adequado exigir tal tratamento como parte da pena pelos delitos? Seria aceitável que tivessem as outras penas restritivas diminuídas em face do tratamento? Essas indagações dependem muito da função da pena adotada pela sociedade.
Ainda no Direito, poderíamos pensar nas consequências jurídicas de um tratamento preventivo, e não interventivo. Em outras palavras, seria aceitável que tomássemos doses periódicas do medicamento, como uma vacina? Se sim, seria exigível? Qual seria a punição, em caso de descumprimento? Nesse caso, devemos pesar a liberdade individual e a intervenção estatal nessa liberdade. Como tal, o Estado teria o ônus argumentativo e precisaria justificar esse tipo de medida, demonstrando, além da relação causal entre ela e o resultado pretendido, que ela é a menos gravosa para que os fins sejam satisfeitos.
Grande parte da ojeriza por tais métodos de tratamento vem de nossa programação inata. Somos irremediavelmente essencialistas, no sentido de procurarmos uma essência imutável, inerente às coisas e às pessoas. Logo, se uma pessoa tem propensão à violência, não importa por que tipo de tratamento ela venha a passar — desde sessões de ioga ou de assistência psicológica, até medicamentos e tratamentos hormonais —, sempre seremos céticos com relação à imagem daquela pessoa que outrora ocupara nossas mentes. Não é assim que enxergamos evangélicos convertidos após uma vida inteira de ações pouco louváveis?
É esse tipo de pensamento que desemboca no que veio a ser conhecido como livre-arbítrio. Em parte, mesmo sabendo que não temos tanto controle assim, parece que continuamos a acreditar que as pessoas devem ser responsáveis por seus atos ― e principalmente que devem ser punidas indefinidamente, com penas não raro claramente desproporcionais em tempo ou em violência. Obviamente, o determinismo biológico não é suficiente para que isentemos os indivíduos de seus atos, mas as medidas retribucionistas acabam por exagerar o poder de decisão à disposição, quando da ação ou da omissão.
Certamente, em um sentido puramente utilitarista, nada disso importaria. Mas o sentimento de repulsa pode ser alimentado um pouco mais. Vejamos. Até agora, falamos especificamente de tratamentos farmacológicos, mas há formas, digamos, “naturais” de conseguir ocitocina. A mais simples delas é trocando abraços. Parece simplória, mas o ato banal de afagar outro indivíduo com os seus braços aumenta a produção de ocitocina. Não teremos problemas se o abraço for sincero e despretensioso ― seja lá o que isso queira dizer. No entanto, imaginemos a situação daquelas pessoas que fazem campanha nas ruas, distribuindo abraços gratuitos a estranhos.
Até que ponto nos sentimos bem com aquele gesto? Se realmente nos faz sentir algo bom, é tão bom quanto o carinho dado fora do movimento elaborado? Pensando com nosso íntimo, há alguma forma de resistência à ideia de sairmos à rua e abraçarmos estranhos, ou de sermos abraçados por eles? Sabemos do objetivo da empresa, mas existe algum sentimento de manipulação? Afinal, não estão estimulando um aparelho de recompensa de forma intencional e premeditada? Até que ponto isso é mais natural do que a injeção direta da ocitocina?
Dito isso, é fácil constatar que chegamos a um momento do conhecimento científico no qual temos soluções satisfatórias para comportamentos humanos considerados danosos, mas que não nos sentimos bem ao utilizá-las porque elas nem sempre vão de encontro aos nossos instintos. Por mais que teorias avancem no campo de visão de pena, grande parte da população ainda deseja que criminosos paguem por seus crimes, numa alusão clara à lex talionis. Diferentemente da busca pela ressocialização do apenado, a simples retribuição ainda aparece aplacar melhor a “sede de justiça”, dificilmente distinta da vingança.
Fazer com que todos entendam e aceitem a razoabilidade das novas medidas, passando por cima de ideias arraigadas e consoantes com nossa programação biológica, não parece ser uma opção viável ― ou, ao menos, fácil de conseguir. Nesses casos, devemos impor limites claros aos tipos de pena das quais o Estado poderá dispor contra o indivíduo, para que ele, livre das paixões humanas, possa dar continuidade ao processo civilizatório que tem dado resultados satisfatórios em conter a violência.
Longe de afastar outras causas, tais como as necessidades de uma economia de mercado mundial, ganhamos muito em diminuirmos o número de linchamentos decorrentes da aplicação da vontade imediata de uma turba enfurecida. Assim como ganhamos em esperar comprovações antes de exigirmos a punição imediata daqueles que consideramos delinquentes ou criminosos. E exatamente como ganhamos ao não diferenciar indivíduos, pelos olhos do Estado, de acordo com suas peculiaridades ou das notícias que chegam até nós.
Um mundo em que sejamos obrigados a tratar familiares e estranhos da mesma forma é praticamente inconcebível. Mas um mundo em que não tratemos tais estranhos como inimigos mortais, dignos de desconfiança e desprezo, é completamente factível, desde que usemos os mecanismos biológicos disponíveis em nosso favor, buscando atingir os fins que racionalmente desejamos. Pessoalmente, a escolha entre o equilíbrio da micro e da macroperspectiva é de caráter meramente moral ― e aqui passamos a depender dos níveis de ocitocina.
Tratando isso como deficiência ou qualidades individuais, podemos traçar um limite razoável a ser respeitado por todos. Dessa forma, podemos ter casos em que nossa liberdade irrestrita vá de encontro à boa vida social, e, portanto, deve ser cerceada, segundo benefícios generalizados.
Leituras recomendadas:
BARASH, David P.; LIPTON, Judith Eve. Payback: why we retaliate, redirect aggression, and take revenge. Nova Iorque: Oxford University Press, 2011. [em inglês]
KOGAN, Aleksandr et alA thin-slicing study of the oxytocin receptor (OXTR) gene and the evaluation and expression of the prosocial disposition. Disponível online em: <http://www.psych.utoronto.ca/users/spa/news2/Papers/A thin-slicing study of the oxytocin receptor (OXTR) gene and the evaluation and expression of the prosocial disposition–Kogan et al 2011.pdf>. Último acesso em 30 nov. 2011. [em inglês]
PINKER, Steven. Tabula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
PINKER, Steven. The better angels of our nature: why violence has declined. Nova Iorque: Viking, 2011. [em inglês]
STEWART-WILLIAMS, Steve. Darwin, god, and the meaning of life: how evolutionary theory undermines everything you thought you knew. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2010. [em inglês]
VERPLAETSE, Jan et al (org.). The moral brain: essays on the evolutionary and neuroscientific aspects of morality. Nova Iorque: Springer, 2009. [em inglês]

Pra se pensar ....

Desespero anunciado

Desespero anunciado Para que essa agonia exorbitante? Parece que tudo vai se esvair O que se deve fazer? Viver recluso na pr...