| Dom Casmurro, de Machado de Assis | |||
Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia. há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e
economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor,não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa. | |||
É a página de todos que acreditam na amizade e no seu poder de libertação e felicidade.É o lugar daqueles que percebem na amizade o fator de realização e perfeição. Quem vive a fazer o bem é feliz!
Dom Casmurro
SIM, E' POSSIVEL!!
| Sobre as possibilidades (de Rilke) | |||
É possível que não se tenha visto, conhecido e dito nada de real e importante? É possível que se tenha tido milênios para olhar, refletir e anotar e que se tenha deixado passar os milênios como uma pausa escolar, durante a qual se come fatias de pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível. É possível que, apesar das investigações e dos progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado na superfície da vida? É possível que até se tenha coberto essa superfície - que, apesar de tudo, seria qualquer coisa - com um pano incrivelmente aborrecido, de tal modo que se assemelhe aos móveis da sala durante as férias de Verão? Sim, é possível. É possível que toda a História Universal tenha sido mal-entendida? É possível que o passado seja falso, precisamente porque sempre se falou das suas multidões, como se dissertasse sobre uma aglomeração de pessoas, em vez de falar de uma única, em torno da qual elas estavam, porque se tratava de um desconhecido que morreu? Sim, é possível. É possível que se tenha julgado ser preciso recuperar o que aconteceu antes de se ter nascido? É possível que se tivesse de lembrar a cada um que ele, de fato é proveniente de todos os antecessores, tendo ele disso conhecimento e não devendo dar ouvidos a outros que soubessem outras coisas? Sim, é possível. É possível que todas estas pessoas conheçam em pormenor um passado que nunca houve? É possível que todas as realidades nada sejam para elas; que a sua vida decorra, desligada de tudo, como um relógio numa sala vazia? Sim, é possível. | |||
Ridiculos S.A
Você também sabe que é ridículo toda vez que veste uma peça de roupa cara para demonstrar uma condição que não tem a alguém que não está interessado - e volta para casa frustrado novamente.
Eu sei que sou indiscutivelmente ridículo tentando disfarçar a solidão lendo um jornal de ontem e respondendo as palavras cruzadas todas pela metade, fazendo de conta que é só para esperar a chuva passar.
Somos todos ridículos. Em vários aspectos. Ninguém escapa das pequenezas e vergonhas da vida.
A apresentadora feliz do telejornal do meio-dia também se sente ridícula ao carregar o corretivo na maquiagem para esconder as olheiras de uma noite mal dormida, em consequência de um coração partido. Enquanto lê mecanicamente no teleprompter frases escritas por outra pessoa, conclui que nenhuma daquelas notícias lhe interessa, pois o seu mundo já acabou de qualquer maneira.
A gostosona da academia, no fundo, sabe que é completamente ridícula por se cobrar doentiamente uma forma perfeita, pois não reconhece em si mesma outras qualidades que não as pernas torneadas e o abdome enxuto. O pedreiro, que levanta junto com o sol, volta para casa diariamente sentindo-se o mais ridículo dos seres humanos, por construir mansões maravilhosas nas quais nunca poderá morar.
O seu melhor amigo também se sente ridículo te pedindo dinheiro emprestado para pagar as contas enquanto não consegue um emprego. E quando bebe demais e acaba derramando novamente as mesmas lamentações sobre você. E o técnico do seu time também chora sozinho no vestiário depois de perder o campeonato, sentindo-se miseravelmente ridículo.
Aquele cara que é o melhor da turma do basquete, aparentemente tão bem resolvido, só tem essa vida social insanamente agitada porque busca preencher cada minuto do tempo livre que tem, com qualquer atividade que seja, simplesmente porque não consegue lidar com o próprio vazio existencial - e, para ele, ficar só é desesperador.
Somos todos ridículos buscando a aprovação alheia, fazendo coisas das quais não gostamos, com as quais não concordamos, simplesmente por acharmos que a opinião dos outros vale mais que a nossa própria. Somos primitivamente ridículos tentando fazer parte de um grupo, tentando impressionar, nos vangloriando por feitos infantis que nada representam. Somos ridículos nos sentindo desnudos perante os olhares da multidão.
Somos todos ridículos quando fraquejamos e desistimos dos nossos sonhos, nos apavorando com qualquer obstáculo no caminho. Somos profundamente ridículos quando tentamos controlar nossos sentimentos, disparando frases de efeito patéticas e gritantemente artificiais.
Eu sou e você também é. Sim, somos ridículos.
Somos desprezivelmente ridículos quando imploramos por atenção - muitas vezes nos contentando com migalhas.
Somos ridículos quando queremos ter razão a qualquer custo - mesmo quando sabemos, no nosso íntimo, estar errados -, ou quando argumentamos tão calorosamente a ponto de nos contradizer.
De perto, somos todos ridículos.
Somos ridículos porque queremos ser aceitos, admirados - ainda que passando uma imagem milimetricamente construída e lapidada.
Somos todos ridículos em nossas inseguranças. Somos ridículos porque a honestidade nos expõe e, no fundo, somos todos crianças assustadas com a ideia de ter feito algo (ou tudo) errado e sermos punidos por isso.
Somos ridículos porque queremos agradar. Somos ridículos pura e simplesmente porque queremos ser amados. Somos ridículos assim porque somos humanos.
Postado há 8th January por Mayara Godoy
O carteiro e o poeta
O
Carteiro e o Poeta.
O que é essa
danada inquietude que nos faz estrangeiros dentro da própria casa? Qual o
sentido da vida quando não se contenta com o dado e busca atingir novos
horizontes? Tudo isso tece a trama
central e existencial do “O Carteiro e o Poeta”.
As indicações a
seguir sobre o filme são partir da literatura publicada no site www. :
Il Postino ('O Carteiro e o
Poeta') é um filme
dirigido por Michael
Radford e fala sobre a
amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda e Mario, um humilde carteiro
italiano que deseja aprender a
fazer poesia.
Baseado no livro Il
Postino de Antonio Skármeta. O roteiro foi adaptado por Anna Pavignano, Michael
Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Massimo
Troisi que também
interpretou o carteiro. A história se passa na Itália nos anos 50.
Resumo: Por razões políticas o poeta Pablo Neruda se exila em uma ilha
na Itália. Lá, um desempregado quase analfabeto é contratado como
"carteiro" extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta.
Gradativamente se forma uma sólida amizade entre os dois. O carteiro Mario, aos
poucos, aprende a escrever seus sentimentos por Beatrice, e Neruda ganha, em
troca, um ouvinte compreensivo para suas lembranças saudosas do Chile.
Ficha
técnica:
Data de
lançamento: 22 de setembro de 1994 (Itália)
Prêmios: Oscar de melhor banda sonora, Prêmio BAFTA
de Cinema: Melhor Trilha Sonora Original, Prêmio BAFTA
de Cinema: Melhor Direção, Prêmio da
Academia Japonesa de Cinema para Melhor Filme em Língua Estrangeira, Prêmio BAFTA
de Cinema: Melhor Filme Estrangeiro, Critics'
Choice Award: Melhor Filme Estrangeiro, Prêmio David
di Donatello de Melhor Edição.
- Elenco: Massimo Troisi, Maria Grazia Cucinotta, Philippe
Noiret, …
Análise do
filme:
As longas
estradas a percorrer: a inquietação, os
porquês, o desejo que impulsiona a busca de si mesmo.
A possibilidade que se abre
com uma vida diversa da comum no lugar onde se vive: os grandes sentimentos
nascem das coisas comuns.
O fascínio da poesia: um diálogo entre o mundo
concreto e um mundo que busca o seu fundamento. A poesia explicada se torna
banal. As palavras balanceiam como as ondam do mar. Como um barco balançando no
meio das palavras, pois “as palavras são as piores coisas que existem”.
A aproximação e confiança: o que parecia uma relação
improvável, tornou-se uma amizade, ou seja, o outro, ao menos para o carteiro,
não se resumia a pura função ou personagem, mas um vínculo que oferecia a
chance de concretizar os próprios desejos, ou seja, o Carteiro percebia no
Poeta a real ligação entre os próprios sonhos e desejos e suas
realizações. O que seria uma curiosidade
e uma tentativa quase desesperada de se aproximar da amada, mostrou-se como o
salto qualitativo e um horizonte a ser explorado.
A pergunta por algo a mais: “estou cansado de ser um
homem”, o que significa, estou cansado do mundo que mim é oferecido e dado e
que almejo algo que responda melhor meus anseios de realização e que me
satisfaça? Seria apenas a constatação de que as coisas e pessoas ao derredor
não são mais suficientes? Ou que somos feitos para abraçar o infinito e a
mesmice nos impede de olhar diversamente o futuro? Estou cansado de ter a mesma
sorte de todos e de não ser eu mesmo?
As metáforas: a linguagem para falar do
extraordinário, quer dizer, da vida, do amor, do divino. Tudo é metáfora de
algo que existe, diz o filme: “o mundo inteiro é metáfora de alguma coisa”, que
as coisas aparentes são sinais de outras coisas, ou seja, que existe um
fundamento que ultrapassa a simples manifestação do existente.
O que faz o homem um ser singular e na constante busca
de si por além de si mesmo? A
inquietação, a solidão, a nostalgia, o desejo, a esperança… O filme mostra esse
homem que na quase desesperada busca de si e do significado mais profundo da
sua existência, acaba por ter na poesia e na figura de Neruda, a possibilidade
de extravasar as suas sedes; o referido, o corriqueiro já não pode abarcar os
seus limites, faz-se necessário caçar além de si e dos seus por algo que possa
vir a preencher o seu vazio. O novo, o diverso ressoa o seu som e faz revigorar
e despertar o que se encontrava adormecido, ou seja, do encontro com o outro,
com o diverso nascem a coragem e a esperança. O desejo não é simplesmente
desejo, é vida que brota e que pode se realizar.
Na sublinhada frase de Neruda: “Sinto falta do mar.
Sinto falta dos pássaros. Manda para mim os sons de minha casa”, denota a
nostalgia pelo vivido, mas também a insatisfação que se experimenta sempre. A
poesia é a revelação dos sentimentos que denotam a expectativa por uma
realização.
Privatização da fé e da vida religiosa ou espiritual
Privatização da fé e da vida religiosa ou espiritual
Uma problemática antiga dos estudos de religião diz respeito a se a religião seria, ou não, um fenômeno universalmente humano (homo religiosus). Apenas se pode afirmar que todas as civilizações passadas e atuais das quais se dispõe de documentação confiável apresentaram ou apresentam algum tipo de manifestação religiosa, mas isso não nos permite elaborar conclusões universalistas quanto a sociedades antigas sobre as quais pouco se sabe ou quanto a sociedades futuras (James, 1994).
Não é demais lembrar que os termos religião e religioso, de matriz latina, são estranhos à linguagem das culturas antigas (excluída a romano-latina) e das culturas não européias. E as interpretações que se fizeram do termo, historicamente, são muitas: escrúpulo, consciência, exatidão, lealdade; um estilo de comportamento marcado pela rigidez e precisão. A partir de Agostinho (354-430), enfatiza-se a exortação do homem para Deus, articulando-se religio a religando. Estava aberto o caminho para a idéia de ligação baseada na submissão e no amor entre o homem e Deus. Na atualidade, a idéia mais corrente é a de religare (tendo como fonte o termo latino relegere ou religáre), que não significa, necessariamente, religação com um Deus, mas, sim, com a existência, com o cosmos, com as dimensões invisíveis, com o divino, com o misterioso.
No início do século XX, coloca-se uma problemática básica (em termos do que são a origem e as âncoras do conhecimento) da Ciência da Religião: compreender ou explicar a religião e a religiosidade. Posteriormente, Evans-Pritchard escrevia sobre a atitude dos sociólogos e, em particular, dos antropólogos sociais, diante da fé e da prática religiosa, em sua maior parte, como francamente hostil, anti-religiosa. Seus contemporâneos seriam agnósticos e positivistas, apesar de a Antropologia ter surgido a partir dos estudos comparativos da religião. Segundo o autor, esta era tratada como superstição para a qual era necessária uma explicação científica. A maioria dos antropólogos "[...] sustentariam que a fé religiosa é uma ilusão, um curioso fenômeno que logo será extinto e que poderá ser explicado [...]" (Evans-Pritchard, 1986, p. 11). Afinal, a Antropologia teria sido produto de mentes que, com raras exceções, encaravam a religião como inútil, além do fato de esta ter dificultado o caminho do que era considerado como de regeneração racional da humanidade e do progresso.
De fato, concordando com Evans-Pritchard (ibid., p. 18), as leituras feitas por vários clássicos sobre a religião, no século XIX e no início do século XX (Comte, Durkheim, Marx, Freud, Weber), foram francamente críticas e desqualificadoras. A frase de Marx (1818-1883) de que a religião é o ópio do povo é a mais conhecida das afirmações, mas tanto ele, quanto outros grandes sociólogos e o pai da psicanálise, Freud (1856-1939), estavam convencidos de que a religião desapareceria com o desenvolvimento da ciência e da racionalidade moderna, postura que já se encontrava no pensamento, por exemplo, de Lucrécio, no século I a.C. Este afirmava que a religião nascia do medo do incontrolável, que sua função seria induzir os homens a realizar até mesmo coisas nefandas e que ela estava destinada a desaparecer.
Na atualidade, há autores que afirmam que se está diante de uma realidade que estaria apontando para uma possível implosão do próprio conceito de religião (Oro e Steill, 1977), o fim da religião (Giumbelli, 2002). Fala-se ainda de decomposição do religioso. O fato é que se assiste a uma perda crescente de autoridade das instituições religiosas, um processo de desinstitucionalização, de indiferentismo religioso, de carência de "vocação" ou de interesse pelo ingresso em ordens religiosas. Hortal (1993) pensa o processo, no início da década de 1990, em termos de que a religião teria virado artigo de consumo descartável. E uma das questões postas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na abertura da revista onde foi publicado o texto de Hortal foi: "O que fazer diante da expansão dos grupos religiosos não católicos?".
O fato é que a religião e a religiosidade não desapareceram, mas estariam sendo revividas, como nos sugere o título do livro do sociólogo Berger (1996), Rumor de Anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. E os que se declaram "sem religião" são, em sua maioria, crentes sem vínculo institucional, podendo ser, inclusive, confundidos com religiosos, principalmente, por terem crenças próprias, sobretudo do universo cristão (Fernandes, 2006; Novaes, 2005). E este reviver, na atualidade ocidental, aponta para questões muito instigantes. Uma das mais evidentes é o processo de transmutação de religião em espiritualidade.
Espiritualidade refere-se, especialmente, a uma questão de natureza pessoal: resposta a aspectos fundamentais da vida, relacionamento com o sagrado ou com o transcendente, o qual pode (ou não) levar ao desenvolvimento de rituais religiosos e à formação de comunidades. Para Hill e Pargament (2003), a espiritualidade está ligada aos aspectos pessoais e subjetivos da experiência religiosa e a uma busca pelo sagrado, processo através do qual as pessoas procuram descobrir e, em alguns casos, transformar aquilo que têm de sagrado em suas vidas.
Este artigo trata de algumas das questões sobre o referido processo. Ou seja, a construção de um campo religioso pluralista marcado por duplicidades e multiplicidades; o crescimento da busca por uma religiosidade não convencional; a "psicologização" da religião; a privatização e individualização típicas da modernidade levadas às últimas conseqüências; a "empresarização" das igrejas e a "espiritualização" das empresas.
Estas reflexões são fruto, sobretudo, de anos de pesquisa que vem sendo desenvolvida no Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em torno da Sociologia das Adesões: religiosidades não convencionais. Estas se ancoram na capital federal e entorno. Entretanto, os seus resultados podem ser, em boa medida, generalizáveis, pelos motivos que se seguem.
Uma das etapas desta investigação foi uma pesquisa comparada internacional realizada com quase 4.000 estudantes universitários de 16 universidades em 10 países europeus e americanos (Argentina, Brasil, Colômbia, Uruguai, Alemanha, Áustria, Grã-Bretanha, Itália, Portugal, Estados Unidos) sobre religião e esoterismo (Valle-Hollinger, Siqueira e Hollinger, 2002). Confirmou-se a tendência, no Ocidente, da busca por religiosidades não convencionais. No que se refere ao processo de "psicologização" da religião, comprovou-se que a maioria dos estudantes teve algumas experiências com as práticas não convencionais ou New Age. Tal processo iniciou-se como pequeno movimento contracultural, na década de 1960, nos Estados Unidos, como uma reação às condições e à organização de vida das sociedades industrializadas. Fez parte de um movimento mais amplo de contestação, incluindo o movimento hippie e o estudantil. O ano de 1968 é um ano de referência para o movimento contestatório estudantil, que eclodiu na Europa e também na América Latina. As atividadesNew Age têm se tornado crescentemente populares, particularmente entre as novas gerações e os estratos da população com maior nível de escolaridade, articulando-se à utilização de práticas orientais, de crenças e práticas pré-capitalistas, à ecologia, aos movimentos pacifistas e holísticos (que buscam a unidade), dentre outros. Um número considerável dos estudantes teve um contato bastante próximo com o mercado esotérico.
O padrão de disseminação dessas atividades entre os diferentes países pesquisados não é tão distinto como é o caso da religiosidade e das crenças mágico-esotéricas. Métodos orientais de espiritualidade e cura têm sido praticados mais freqüentemente por estudantes dos países do norte e oeste da Europa. Fora desse continente, esses métodos têm maior grau de disseminação nos centros metropolitanos (como Brasília, Montevidéu e Medellín) do que em cidades menores e mais conservadoras. Os métodos esotéricos que já tinham uma longa tradição nas sociedades ocidentais (curandeirismo, cartomancia) são praticados, mais freqüentemente, pelos estudantes latino-americanos, mas também pelos norte-americanos.
Examinando-se os resultados internacionais das atividades New Age e não convencionais, com os resultados da religiosidade e das crenças mágico-esotéricas, pode-se afirmar que a prática esotérica na Europa norte-ocidental tem um caráter bastante secularizado: os métodos espirituais e esotéricos têm sido usados para obter experiências holísticas (emocionais, sensuais, cognitivas) e para explorar a própria personalidade, sem que isso implique, necessariamente, adesão às crenças associadas a tais práticas em seu contexto original. Por sua vez, os métodos espirituais e esotéricos na América Latina e também nos Estados Unidos têm sido vistos mais na sua forma original, isto é, ligados a um cosmo sagrado de entidades espirituais e divinas.
Em outras palavras, os resultados desta pesquisa confirmam o privilégio da capital do Brasil como objeto destes estudos. Ao mesmo tempo em que nela se fazem presentes crenças e práticas mágicas tradicionais da sociedade, o padrão de consumo de práticas New Age e não convencionais é semelhante aos da Europa.
A beira do abismo
À beira do abismo
Você já pensou em se machucar?
Todo homem tem seu limite
O desespero é a força dos agonizantes
Poucas pessoas suportam o sofrimento por muito tempo…
Cuidar de si é levar adiante os próprios objetivos…
A ingenuidade é
o passaporte dos inocentes.
Quem tem angústia não sabe medir o tempo
Quem sofre insônia não conhece calmaria
Quem acredita espera que o destino se mude
Quem sabe fingir não escreve autobiografia
Diante do nada tudo parecer ser muito vazio
A beira do abismo só resta a incerteza do próximo passo.
P. Jorge
Ribeiro
Maio 2014
A vida é uma farsa
Minha vida é uma mentira
Possivelmente, se pararmos pra pensar, o grande ensinamento por trás de quase tudo na vida é a importância de mentir/simular. Star Wars, no fundo, fala sobre aquelas pessoas que conseguem aprender a mentir e aquelas que não conseguem. O ditado que diz que um casamento vale mais que mil mosteiros, em suma, fala sobre o bom senso de duas pessoas que sabem como pode ser gratificante simular com um sorriso no rosto.
Tento aprender (a duras penas) sobre isso desde que, certa feita, o Padawan Juliano começou a insistir na tecla “fake it” pra mim, que defendia a suprema verdade absoluta e contínua como o sublime cotidiano. Enquanto ele dizia isso eu deixava de levar em consideração o dito, falando que ele tava sendo só um gangstamodafoca. Claro, o nível mais sútil raramente é apreendido e se perde na insolência cotidiana. Então, tempos depois, o Last Psychiatrist colocou o tema de maneira mais For Dummies e eu consegui captar:
E se agora tu te sentou aí no teu cantinho e pensou: HA, eu nem sou um narcisista, beleza, seguirei levando a verdade acima de tudo. Bom, certamente tu é um porco egoísta.
Por outro lado, tu também pode pensar que não precisa mentir, já que quando tu te importa com alguém a verdade é a sempre doce e suave. Além de ser uma mentira imbecil, nós raramente começamos nos importando com os outros logo de cara e o meu ideal é que isso seja universal, saca? O processo que nos leva a criar vínculos é uma longa teia de mentirinhas carinhosas que visam aproximação. De que outra forma tu conseguiria conhecer dobrinhas da alma de alguém, se não por ter passado longos períodos falando frugalidades, imbecilidades e invencionismos com essa pessoa? O romance, a amizade, o carinho, o amor familiar, tudo tem suas bases em pequenas ficções. E a ficção é linda.
Imagina acordar e toda a ficção do mundo ter sumido. How sad. Como delimitar o que é real, pra começar? De toda form, a vida seria bem vazia, eu acho. É como disse Leminski:
Tento aprender (a duras penas) sobre isso desde que, certa feita, o Padawan Juliano começou a insistir na tecla “fake it” pra mim, que defendia a suprema verdade absoluta e contínua como o sublime cotidiano. Enquanto ele dizia isso eu deixava de levar em consideração o dito, falando que ele tava sendo só um gangstamodafoca. Claro, o nível mais sútil raramente é apreendido e se perde na insolência cotidiana. Então, tempos depois, o Last Psychiatrist colocou o tema de maneira mais For Dummies e eu consegui captar:
“Help me, please, I think I’m a narcissist. What do I do?”Mentir, simular, é a essência de ver e se importar com o outro. E só se importa com o outro quem não é patologicamente imbecil, claro. Por isso, acredito eu, socialmente só existimos por termos essa capacidade incrível de criar ficção que diminui a danação.
There are a hundred correct answers, yet all of them useless, all of them will fail precisely because you want to hear them.
There’s only one that’s universally effective, I’ve said it before and no one liked it. This is step 1: fake it.
You’ll say: but this isn’t a treatment, this doesn’t make a real change in me, this isn’t going to make me less of a narcissist if I’m faking!
All of those answers are the narcissism talking. All of those answers miss the point: your treatment isn’t for you, it’s for everyone else.
If you do not understand this, repeat step 1.
E se agora tu te sentou aí no teu cantinho e pensou: HA, eu nem sou um narcisista, beleza, seguirei levando a verdade acima de tudo. Bom, certamente tu é um porco egoísta.
Por outro lado, tu também pode pensar que não precisa mentir, já que quando tu te importa com alguém a verdade é a sempre doce e suave. Além de ser uma mentira imbecil, nós raramente começamos nos importando com os outros logo de cara e o meu ideal é que isso seja universal, saca? O processo que nos leva a criar vínculos é uma longa teia de mentirinhas carinhosas que visam aproximação. De que outra forma tu conseguiria conhecer dobrinhas da alma de alguém, se não por ter passado longos períodos falando frugalidades, imbecilidades e invencionismos com essa pessoa? O romance, a amizade, o carinho, o amor familiar, tudo tem suas bases em pequenas ficções. E a ficção é linda.
Imagina acordar e toda a ficção do mundo ter sumido. How sad. Como delimitar o que é real, pra começar? De toda form, a vida seria bem vazia, eu acho. É como disse Leminski:
podem ficar com a realidadeMas, enfim, acredito que gradações e intenções moldam tudo, incluindo os meandros ficcionais. Então, talvez o melhor jeito de exemplificar o que eu tou falando blablabla é sugerindo que tu veja The Invention of Lying, num mundo sem mentira, todo mundo é amargo, niilista, direto, sem amor e sem afeto. E sem livros. Nem filmes. Nem jogos de palavras. Um mundo asperger.
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano
eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano
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