SEM IDEIAS

Sem ideias




Queria escrever algo. Bonito, que atraísse ou chocante que chamasse atenção ou inovador que permitisse novas ideias e interpretações. Mas estou sem inspiração. Nada está chamando a atenção para poder discorrer ou poetizar. Tudo caindo na mesmice e na falta de maravilhamento. Sem noção, sem ideias. Tudo parece normal e monótono. Nada assim que desperte o interesse ou dê motivação para uma explanação ou redigir um texto de qualquer gênero. Escrever sobre o cotidiano? O poeta e escritor percebe a realidade corriqueira com outros olhos. Mas, justamente, está faltando esse olhar diferenciado para contemplar o dado. Tudo parece discrepante e sem um viés de apreciação. Será eu que estou numa fase de desencanto e por isso a realidade se mostra opaca e sem horizontes mais desafiadores? Seria a correria e o cansaço que esmorecem e não oferecem possibilidades de reflexão mais crítica e apurado do mundo e das experiências que se vivem? Todo esse complexo influencia e causa desilusão, mas é suficiente para determinar e inibir a expansão de novos conhecimentos e produções? Tanto descaso, corrupção, ameaças, fechamentos, inibições, indiferenças, interesses, violências e outros adjuntos, seriam esses os fatores que pesam para que o as ideias fiquem congeladas e timidamente se escondam? Perambulei sobre o que escrever: sem ideias. O tempo? Esse calor e falta de chuva não me inspiram. A política? Essa confusão de papeis e de conveniências causam nojo. Sobre o natal? Essa comercialização e banalização do espírito do Menino Deus esvaziam o saco da esperança. Sobre a educação e o futuro? Cortinas negras de retrocessos e fechamentos permeiam os caminhos. Sobre o trabalho e os afazeres? Melhorar o ambiente, inovar tecnologias e instrumentos, oferecer oportunidades. Mas esse que fazer é rotineiro e robotiza também, acaba por fazer da pessoa parte de uma engrenagem, sem a exuberância da vida. Isso não é viver, é rastejar. Realmente estou sem ideias. E esse estar sem ideias me coloca no meio de um povo que caminha errante, sem se perguntar, sem perspectivas e sem vontade de mudar. A mudança? Essa sim deve inspirar e deve trazer algo novo.

Tudo o que está vivo é pra morrer

Tudo o que está vivo é pra morrer


Por. P. Jorge Ribeiro




Existir é se encontrar com a morte. Se é verdade que quem tem olhos tem medo, também é verdade que tudo que está vivo vai morrer.  Certeza inexorável e contestada. Absurdo nascer, mais absurdo ainda morrer, pode-se gritar. Essa é a lei intrínseca de todo vivente, caminhar para a morte. Pode-se aliviar acentuando a morte física para fugir da morte eterna, mas ela sempre existe. Persegue, encontrar, carrega consigo. A morte é implacável. Ela tem mil desculpas e mil formas de se aproximar. Pode-se criar mecanismos de defesa, de enganos e mascaras, ao final a morte abocanha a tudo e a todos. Desde a pedra ao ser mais iluminado: todos enfrentarão a decomposição e a provisoriedade de existir. Morre os loucos e também os insensatos, os sábios, os santos e os corruptos. Todos estão sujeitos ao crivo da irmã morte. Ela é despretensiosa e despreconceituada. Acolhe a todos sem exceção. Gera medo dar-se conta que se tornará pó, cinzas e nada mais. Para que tanto orgulho e tanta vaidade, cinicamente pode-se perguntar. Mas qual o propósito do mesmo existir? Estar no mundo e vivenciar o que cabe ou construir a própria estrada? Construir torres ou estátuas, fazer implantes ou retardar os sinais da velhice, seria uma forma de manipular ou tentar escorregar dos braços da morte? A consciência de não estar mais gera perplexidade. Cria-se muitos laços e se estabelece tantas relações e depois tudo se afogar num piscar de olhos. Ironia! A indiferença é uma forma de não pensar a morte, assim como certas religiões e filosofias. Sempre é a mísera esperança de que ela não chegue. Dar-se conta continuamente que tantas coisas que estava, já não estão, tanta gente que vivia e não está mais nesse plano, o que pensar e como reagir? Tudo é caduco, inclusive eu. A vida é um teatro que cada um exerce um papel e depois se recua? De onde vem essa mania de eternizar-se? Por que não aceitar o obvio? O que não se aceita é a morte ou como ela se apropria dos viventes? A ressurreição! É uma certeza só para quem crer, mas sem garantia de realização. É uma hipótese. Bom para se pensar e se viver esperando. Mas a morte chega sem distinção. Morre o crente e o ateu também. Aos olhos naturais a existência é um fracasso, é fadada ao nada. Visivelmente toda morte é uma desgraça, um projeto falido de eternidade. Mas por que esse apego ao que pertence aos outros? A vida não é de ninguém, pertence a um outro sim, quem tem o controle de seu aparecer e esvair? No máximo se apropria de algumas de suas propriedades para ser algo mais próximo e dar sentido de pertença. A vida é dom. Gratuidade pura. Existir é administrar essa vida imbuída em diversas formas de surgir. Então desaparecer não seria um drama. É lei da vida. Tudo que está vivo é pra morrer. Alguns desses viventes deixam marcas, outros passam desapercebido mesmo. O drama da morte é o drama de querer se apropriar do que não se sabe bem o que é. Pretensão e apego! Não aceitar essa vulnerabilidade da existência provoca delírios de dominação e de absolutismo. E tem gente que se acha alguma coisa. É nada mais que poeira acumulada. E a graça? Ela aperfeiçoa e não cria uma natureza. E a natureza dos existentes é transeunte e contingente. Então qual o propósito de existir? Perambular em vista de uma terra prometida… existe? Essa já é outra história.

A arte de interpretar a vida

A arte de interpretar a vida



Por P. Jorge Ribeiro




A vida é um fluxo contínuo, um movimento que não se sabe onde e quando se deságua. A vida é também uma arte, quem sabe lidar com seus meandros pode se beneficiar mais de suas dádivas. A outros a vida aparece como um peso a se arrastar ou ainda como um enigma a se decifrar. Que a vida seja descontínua e ambivalente, quem busca levar a sério a própria  existência e refletir sobre sua estadia no mundo logo toma consciência. Mas a vida também reflete toda fluidez, transitoriedade e incertezas de tudo que aparece no mundo e assim, muitas vezes, a vida encarna o desespero e o medo de quem quer garantias e estabilidade. A vida é o que existe, mas o que nunca faz falta se não mais existe. Como interpretar a vida? Basta usar de instrumentos hermenêuticos e de sentenças de sabedoria para poder se apropriar de suas dimensões? A vida escapa a todo esquema, ela não se deixa aprisionar ou monopolizar pelas estruturas que porventura se pode construir. Ela escorre perante todos os aprisionamentos que se possa engendrar. A vida é exuberância e reticência. Qual a melhor maneira de se apropriar ou de se aproximar da vida sem ser domado ou aplastado pelas circunstâncias? Não basta fazer uma dissecação dos seus traços e estruturas, a exegese da vida não abarca tudo o que ela pode ou não oferecer. Muitos querem transformar a vida num simples objeto de estudo ou de transformação, mas ela continua aflorando onde menos se imagina e continua surpreendendo onde nem sequer cogitava possibilidades. E por que isso? Apenas insubordinação da natureza? Inflexibilidade do espírito? Ou capricho dos deuses? Quaisquer que sejam as alternativas a vida continua sendo esse mistério a ser desvendado. Então a pergunta muda de rota: como viver a vida? Tem uma hermenêutica da vida? A vida é um dom e como tal deve ser apreciada. Não é um direito, nem um carma e nem um castigo, é um presente. E a arte de interpreta-la precisa se acostumar com essa vertente. Talvez a melhor arte seja deixar a vida ser, que ela aconteça e que possamos mergulhar no seu mais profundo abismo. Qualquer interpretação da vida vem já de outras interpretações e a vida é mais gostosa de se viver se nos deixamos maravilhar por tudo que ela apresenta e se surpreender com a sua espontaneidade. A vida é pra ser vivida! 

O pior cego é aquele que não quer ver

“O pior cego é aquele que não quer ver”[a]


A alienação e a omissão são presentes demais nas nossas vidas. Muitas vezes somente enxergamos o que nos interessa e o que queremos. Daí vem a pergunta: Pode existir a negação do querer ver? Podemos prosseguir ainda nos perguntando: Alguém pode querer negar o óbvio ou a verdade? Essa atitude pode ser por conveniência, por comodismo ou mesmo por indiferença. Então: Que tipo de cegueira nos impedem de ver a realidade assim como ela é?
Damo-nos conta das diversas cegueiras existentes, assim como mudez também: desde aquela cegueira física, a normal que alguém perdeu a visão, mas também existem a cegueira - mudez mental, a afetiva, a relacional, a psicológica, a intelectual, a social..., e outras que se pode classificar. Em comum a falta de clareza na percepção da realidade e o silêncio perante situações que se pode interferir.
A partir de uma leitura do Evangelho (Mc 7, 31-37), que Jesus cura uma pessoa da sua surdez e mudez, restituindo-a no mudo das relações e entendimentos, a partir da compreensão das vivências, para que volte à comunicação e, portanto, ao encontro com o outro, perguntamo-nos: Que mudez / surdez queremos nos libertar para poder exercer a nossa autonomia como discípulos de Jesus Cristo?
Cabe ainda uma reflexão em primeira pessoa que cada qual pode se fazer: A minha surdez me impede de ir ao encontro das outras pessoas? Tenho medo de me expor e de ser mal-compreendido? Ou será que me sinto dono da verdade e busco resolver tudo sozinho e não me coloco em disponibilidade ao próximo? Existe uma surdez real, mas também aqueles que não querem ouvir.
Ser surdo é não perceber completamente o que acontece ao derredor. A surdez gera vazio, esterilidade, tristeza, egoísmo, fechamento e impede de amar com autenticidade. Aqui um outro questionamento: como anda a minha comunicação com Deus e com as pessoas? A surdez que impero em relação ao outro e suas necessidades também me impede de ouvir e compreender a Palavra de Deus!
A palavra precisa do silêncio para realizar a sua função, senão ela se confunde com os outros ruídos. É preciso desbloquear o que impossibilita o contato com a Palavra: os medos, os preconceitos, os absolutismos, as intolerâncias, as exclusões, as autossuficiências, as arrogâncias, quer dizer, tudo que causa interferência no encontro sincero com a outra pessoa.
Em Jesus e desde sempre Deus está aberto a nos acolher e se coloca em comunicação com à Humanidade! Ele nos fala pela Palavra, pelos Sacramentos, pela criação… , mas é preciso destapar o ouvido e a mente para escutar sua voz. Faz-se necessário a abertura verso o outro. Sair da própria ilha. E o Evangelho citado Jesus clama ao surdo / mudo: Abre-te: assim ele o cura do egoísmo e do mutismo do fechamento. Finalizo voltando à analogia do quer ver, agora citando Saramago no seu Ensaio sobre a cegueira, que parece inferir essa verdade: o pior cego é o que não quer ver, quando ele diz:  Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.







[a] Segundo os arquivos históricos:  Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D'Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imagina era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver.

O momento politico

Momento político no Brasil





Circunda-nos uma triste atmosfera política, pois paira no ar uma sensação de incertezas e de falta de compromisso. Até agora os candidatos não demonstram um sério patriotismo ou afeto pela nação brasileira.  Circulam tipos diversos e diversificados, mas todos com sede de poder e sem uma clara preocupação pelo Brasil e pelos brasileiros. E no cenário vão surgindo os ilustres desconhecidos, os oportunistas de plantão e outros tantos sem definições. Esse vendaval de nomes e de pseudo propostas político-sociais invadem o nosso horizonte e sem a mínima responsabilidade querem se impor como a solução de todas as dificuldades e a resposta de tantas reticências… os candidatos individualistas e ligados ao próprio futuro, não se interessam em construir o bem comum, mas apenas de vencer as eleições. Que tipo de representante vamos ter? Um cenário de aberrações em que se contentam em dizer que o outro candidato é mais corrupto ou menos importante, o que representa isso para um povo? É esse tipinho que queremos que nos representem? Estamos resignados com a mediocridade e nos contentamos em ser um povo sem memória? Por isso é quase impossível não se revoltar diante de tamanha falta de vergonha e falta de compromisso. Mas se não estivermos dispostos a uma mudança de mentalidade e parar com essa mania de levar vantagem em tudo o Brasil não mudará. Enquanto trocarmos nossa dignidade por prestígios e favores, seremos considerados a escoria ética da humanidade. Vamos nos contentar a ser o pais da bola, da bunda e da falcatrua? Confundimos liberdade com liberalidade e progresso com capacidade de adquirir bens, mas com qual qualidade de vida? Permitimos tudo e somos violentamente tratados com intolerância se  não jogamos nos grupos das ideologias. Defendem direitos a se dispor de si como se quer e se proíbem e se esquecem dos direitos inalienáveis, entre eles à vida. Um país que se diz democrático e temos menos de sermos nós mesmos e de nos pronunciarmos, pois as sanções e retaliações não são poucas, inclusive da parte dos mais próximos. Temos de exercer nossa cidadania em escolher nossos representantes, mas precisamos dar um basta aos “acordismos” e toda forma de silêncio obsequioso que colabora com a proliferação da corrupção e das barganhas. É hora do povo mostrar seu poder, unindo-se contra todo marasmo e falta de compromisso com o desenvolvimento comum.

Pra se pensar ....

Desespero anunciado

Desespero anunciado Para que essa agonia exorbitante? Parece que tudo vai se esvair O que se deve fazer? Viver recluso na pr...