A BELEZA DA FE'

DAR RAZÕES DA BELEZA DA FÉ NO CORAÇÃO DO MUNDO

Só na medida em que for possível incluir, na alegria da fé, a solidariedade com os que inocentemente sofrem a perversão do humano, é que essa alegria – sendo sempre alegria “apesar de tudo”, baseada na esperança e não na artificial ilusão – será uma alegria verdadeira e boa: só assim será a alegria correspondente à beleza da fé.




1. Que beleza?No conhecido romance de Dostojevskij, o Idiota, sensivelmente no seu momento central, o jovem nihilista Hipólito, em tom ao mesmo tempo irónico e desesperado, lança a significativa questão ao príncipe Mysckin, o herói que dá o título à obra: “É verdade, príncipe, ter em tempos afirmado que a ‘beleza’ salvará o mundo? Meus senhores – disse ele, em alta voz, para todos os presentes – o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! Mas eu afirmo que ele só chega a ideias tão engenhosas porque está apaixonado… Que beleza salvará o mundo? Foi Kolia quem mo contou…O senhor é um cristão fervoroso? Kolia disse-me que o senhor se considera a si mesmo um cristão” Mark.

Interessantemente, a força e a alegria da paixão amorosa é um dos temas deste romance, seja no sentido de atracção erótica, sexual, seja no sentido de com-paixão, que supera a outra dimensão e pode conduzir o amor a um outro nível, precisamente o nível que lhe permitirá, em princípio, acolher mais profundamente a dimensão da beleza. E, de facto, segundo o próprio Dostojevskij, o verdadeiro tema do romance em causa é a beleza e a sua importância como sentido ou a salvação do mundo.
A grande questão que se levanta é se a beleza, assim compreendida, terá algum significado salvífico ou se essa suposição não será mera idiotice – tal como idiota parece ser o príncipe, o herói do romance, que pretende encarnar a beleza do próprio ser humano – e que termina, de modo enigmático, como verdadeiro idiota. Como idiota parece ser qualquer apaixonado, seja em que sentido for. Idiota, ou então, noutra perspectiva, participante de um sentido, do único sentido que pode salvar o mundo e que transforma, àqueles que o acolhem, em entusiastas atingidos por uma alegria que os deixa fora de si, como qualquer criança; que os transforma em crentes cheios de uma evidência e uma esperança que só pode parecer loucura aos olhos do mundo – como parecia loucura ingénua aos olhos de Hipólito.

Mas a sua questão é séria e permanece em aberto, até porque o príncipe não lhe respondeu, nem o romance de Dostojevskij dá uma resposta clara. Será, então, possível que a beleza salve o mundo? E, mais seriamente ainda, de que beleza falamos aqui?
Na resposta a estas questões joga-se tudo o que tenha a ver com o “dar razões” da beleza da fé cristã. Se pudermos responder que a beleza da fé cristã salvará o mundo – e não qualquer outro modo de beleza, por mais fascinante que seja – teremos dado suficientes razões dessa beleza. Mas como formular essa resposta, de modo compreensível e válido? Ou seja, o que significa, em primeiro lugar, a beleza da fé cristã e a afirmação de que salvará mundo? E, em segundo lugar, porque podemos afirmar, com verdade, que salvará o mundo?

Para tentar respostas a estas questões, começarei por abordar algumas propostas de salvação do mundo pela beleza, assim como os problemas que levantam; com base nesse desafio mundano, proponho uma breve consideração da fé cristã, em termos de beleza, para terminar com uma reflexão sobre a razão dessa beleza.
2. A «estética» do mundo1. A beleza romântica concentra-se numa certa compreensão da dimensão estética da existência, que a identifica, no fundo, com a sua dimensão psíquico-sentimental. Ao mesmo tempo e como resultado dessa redução «estética» da existência – que já implica uma redução da própria estética, muito mais ainda do conceito de beleza – torna-se manifesto o carácter ilusório da salvação construída esteticamente. Essa ilusão resulta do facto da estética, assim compreendida, se transformar em an-estética, isto é, que não capta – não percepciona – a verdade da realidade. O estádio estético, tal como descrito por Kierkegaard, reflecte essa versão romântica da beleza, segundo três modalidades: o poeta, que constrói um mundo imaginário inatingível; o Don Juan hedonista, que vive da constante busca de prazer, sem o atingir plenamente; o sedutor, que egoisticamente se compraz com o processo de sedução, sem pretender nunca realizá-la plenamente. Na medida em que a própria transfiguração artística apenas corresponda a esses modelos, independentemente da dimensão ética e da dimensão de verdade, constrói sempre uma salvação ilusória – uma salvação an-estética, por pervertida esteticização.
A auto-satisfação/realização é, no mundo contemporâneo, a versão dessa beleza romântica. Nas palavras de C. S. Lewis, que dedica ao tema da alegria, pensado conjuntamente com a beleza, páginas densas, esta auto-realização é que parece concentrar as realizações da alegria contemporânea: “Somos criaturas medianas, que se satisfazem com álcool, sexo e carreira, quando nos é oferecida alegria infinita… ficamos contentes demasiado depressa”
 2. E, nesse contentamento, construímos um mundo estético, como alternativa ilusória e sentimental do mundo da verdade, aquele que não nos permitiria parar, fixar-nos no ídolo do imediato.

2. Mas, da concentração na auto-realização, na tentativa humana de auto-realizar a salvação, pela via de uma beleza auto-construída ou ilusoriamente perseguida, resulta a desilusão e a frustração do fracasso. Mais uma vez, pode ser elucidativo o recurso ao romance de Dostojevskij. É que, na relação entre o nihilismo de Hipólito e a inocência crente do príncipe Mychkin, está retratado um dos problemas principais do mundo contemporâneo: a total desilusão em relação a todas as ofertas de salvação. O aparente absurdo do mundo parece transformar toda a esperança de salvação pela beleza numa idiotice pegada; só o cepticismo total de quem desconfia de todas as ofertas de salvação – e, por isso, não acredita na beleza nem com ela se pode alegrar – parece sobrar de todo o processo histórico do Ocidente. O nihilismo completo parece ser o que resta, nos escombros da nossa cultura.

3. Se me é permitido, gostaria de considerar que a cultura contemporânea não estará, possivelmente, apenas nem sobretudo nessa fase nihilista – como seria o caso, possivelmente, da época em que Dostojevskij escreveu o referido romance. Antes talvez se encontre numa outra fase, posterior. Fase que pode ser simbolizada por uma outra figura, frequentemente acusada de nihilismo, mas cuja grande preocupação era encontrar um modo de superar o nihilismo diagnosticado por Dostojevskij. Nietzsche é essa figura. E ele voltava a falar de redenção, para além de todo o desespero. Mas falou em termos do “ser redimido pela aparência”: “o mundo só como fenómeno estético pode ser redimido”
3. Como aspiração do humano, a aparência (bela) supera/salva a aparência da vida (sofrimento). Porque equivale à declaração da não-realidade do real (virtualidade). Trata-se de uma beleza salvífica, para além do bem e do mal, para além da verdade e da falsidade. É a beleza da ilusão artificialmente construída.
O problema do nosso mundo contemporâneo não será, tanto, a desilusão que deixa tudo vazio e que, de tal modo corroeu a capacidade de alegria, que já não permite qualquer fé ou qualquer esperança, reduzindo tudo isso a pura idiotice. Essa posição do céptico, ou mesmo do cínico, foi sendo substituída por uma nova infância: mas precisamente a infância idiota de quem se entusiasma e se considera liberto por qualquer jogo que lhe coloquem nas mãos, sem se preocupar em discernir da sua verdade. Mergulhados no mundo do jogo virtualmente construído, um jogo sem fim, no permanente encadeamento de todos os jogos que ocupam o nosso quotidiano, parecemos crianças alheias ao que nos circunda e aos desafios que os dramas do mundo nos lançam. É nesse contexto que é necessário dar razões da beleza da fé. Mas qual é a beleza da fé?
3. A beleza da fé1. Convém, antes de mais, assumir um conceito profundo de beleza, que corresponde a grande parte da nossa tradição filosófica e teológica ocidental. A beleza seria a manifestação do verdadeiro e do bom, a partir de si mesmo e independentemente do interesse do sujeito. O que é bom e verdadeiro resplandece na sua luminosidade própria, porque nisso resplandece o próprio bem e a própria verdade. Ao sujeito compete a capacidade de captar e acolher – livremente, por certo – esse resplendor. Não se trata, simplesmente, do agradável, do desejável, do harmónico, por si mesmo. Que a beleza tenha, como característica, a atracção ou o fascínio que provoca sobre os humanos, isso não significa que sejam os sentimentos humanos que a originam. Estes sentimentos só têm cabimento, quando determinados pela verdade e pelo bem e não pelo sujeito. Trata-se de afectos – que partem de uma afectação exterior – e não de pura subjectividade erótica.
A alegria, por seu turno, é o sentimento que acolhe, no espanto, o inesperado que salva. Por isso, a alegria é provocada, não é puro estado de espírito, auto-construído ou resultante da satisfação própria. É a capacidade de ser atingido e fascinado por algo – é a capacidade da infância espiritual, pois só uma criança se pode alegrar verdadeiramente. Nisso reside o verdadeiro mistério do riso. Por isso, o jogo da alegria é a interrupção festiva do tempo – possui até certa dimensão utópica, pois instaura entre nós algo que, em realidade, nos é radicalmente impossível: alegrarmo-nos, sem nos desviarmos da verdade deste mundo. A nossa alegria só é possível «apesar de tudo» – e, nesse sentido, nunca será alegria completa.

2. Por isso mesmo é que parece evidente que o mal e o pecado impediriam a beleza – a não ser cinicamente. Por isso, o jovem Hipólito, segundo Dostojevskij, com uma doença que o condena à morte aos dezoito anos, não pode compreender e aceitar que a beleza salve o mundo – nem sequer a beleza que o mundo possa possuir. “Que me interessa a vossa natureza, o vosso parque de Pavlovsk, a vossa aurora e o vosso pôr-do-sol, o vosso céu azul e os vossos rostos sempre contentes, quando toda esta festa, que parece não terminar, começou com o facto de me ter declarado, apenas a mim, como supérfluo? Que me interessa toda essa beleza, se tenho que saber, a cada minuto, a cada segundo, que mesmo o mais ínfimo mosquito, que nos raios do sol zumbe diante de mim, toma parte nesta festa e neste coro, conhecendo o seu lugar, amando-o e sendo feliz, enquanto apenas eu sou expulso e apenas por cobardia não o quis entender, até agora?”
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Não pensemos, contudo, que a posição de Hipólito é completamente contrária ao acolhimento da beleza da fé. A questão é mais complexa. De facto, não podemos entender a beleza da fé, à custa de esquecer ou encobrir este problema, mas apenas na medida em que for possível incluí-lo – sem o resolver ou explicar, mas assumindo-o como presença da verdade.
Porque a beleza da fé é a manifestação e a interpelação da verdade, somos sempre confrontados com a possível deturpação, revelada na frequente expressão de que algo seria “demasiado belo para ser verdadeiro”. Antes nos parece que “a verdade é feia”, porque é dura, nua e crua; precisamente a verdade da nossa realidade, que a verdade da fé não pode ignorar.
Ora, o modo como a fé cristã assume esta verdade está, precisamente, presente no seu centro: na “loucura da cruz”, enquanto loucura do amor, manifesta na dimensão “horrível” do servo crucificado (cf. Is 53, 2; 1 Cor 1, 18 – 2, 4). O próprio Dostojevskij admite, em carta, que “em todo o mundo apenas há uma figura positivamente bela – Cristo, de tal modo que a manifestação dessa figura, desmedida e infinitamente bela, é naturalmente um milagre (todo o Evangelho de João deve ser compreendido neste sentido; encontra o milagre apenas na incarnação, na manifestação da beleza)”
5. Subentende-se, assim, a resposta à pergunta de Hipólito, que no romance fica em aberto. A beleza, tal como incarnada na figura de Cristo, é que salvará o mundo.
Trata-se, aqui, de uma beleza paradoxal, porque é a beleza do servo sofredor. Como pode a salvação do mundo, enquanto beleza, basear-se no sofrimento de um inocente? Não será isso o extremo do cinismo? Certamente, se situássemos a nossa salvação na vitimação de inocentes, necessariamente sacrificados a um bem maior, para salvação de todos. Pior ainda, se considerássemos “belo” todo esse processo sacrificial de salvação.
Mas a perspectiva da salvação cristã está no inverso. O sofrimento do inocente não é salvífico, por ser sofrimento ou por ser vitimação. O que salva é a atitude do inocente: que aceita o seu sofrimento como doação amorosa pelos outros. Nesse sentido, não é o sofrimento da vítima que salva, mas o seu amor, que se manifesta radicalmente na doação da vida. Por isso, trata-se da beleza do amor. Beleza essa que, para escapar à ilusão da construção imaginária e agradável, é uma beleza que assume seriamente o drama do sofrimento humano. Por isso é uma beleza que passa necessariamente pela cruz. Não por prazer masoquista ou por sádica imposição do sofrimento aos outros; mas porque só assim a verdade da situação humana é assumida até à última gota, sem ilusórias transformações do mal em bem, do horrível no agradável, do injusto em justo.
Essa noção e experiência de beleza – como amor real e activo – possui uma força propriamente pragmática (transformadora): o mundo é, não apenas interpretado, mas pragmaticamente transfigurado, para além do seu aparente absurdo. Este modo de beleza contraria assim aquele modo de que falava Adorno, quando protestava contra o “embelezamento da vida, sem a transformar”
6. Em realidade, isso corresponderia a uma compreensão da beleza, sem relação à verdade e sem relação ao bem.
4. As razões da fé
1. A “razão” da fé, que lhe é inerente, é anterior ao “dar razões” dela mesma. Acredita-se através da adesão a uma evidência excessiva, semelhante à percepção do belo, em atitude alegre. Reflecte-se sobre as razões inerentes a essa adesão e ao conteúdo a que se adere (a fé dá que pensar…). Apresentam-se publicamente essas razões: argumentativamente (na apologia especificamente teológica) e testemunhalmente (segundo um estilo de vida e de sentido, também um estilo litúrgico ou celebrativo), para que “dê que pensar” a quem é interpelado – e possa, nessa dinâmica, atingir e experiência de alguém. Por isso, dar razões da fé, no sentido de apresentar (ao mundo, publicamente) as razões que a própria fé possui em si mesma, não é sujeitar a fé ao tribunal exterior de uma pretensa “razão pura”, muito menos se se tratar da razão científica.

2. Ora, para apresentar a todos, em linguagem compreensível e credível, as razões que animam a beleza da nossa fé, teremos que regressar à questão inicial: “Que beleza salvará o mundo?” A resposta parece agora clara: só a beleza do amor revelado na cruz. Nisso acreditamos e disso devemos dar razões.
Contudo, trata-se, como vimos, de uma beleza estranha. Facilmente poderia, por exemplo, levar à confusão entre a inocência que a habita e a idiotice, como interpretações possíveis da loucura que representa. Essa é a ambiguidade da infância espiritual inerente à beleza da fé. Seremos nós verdadeiras crianças, cuja inocência entusiástica, cuja alegria pura do fascínio desinteressado impulsiona o mundo para o seu verdadeiro sentido – ou seremos puros idiotas, que se deixam fascinar por uma ilusão que falsamente nos protege da nua e crua realidade em que vivemos? A resposta a esta questão não depende de qualquer confronto com um aparelho racional exterior, como uma espécie de comprovação metodológica, nem de demonstrações lógicas; a resposta está no discernimento interno à própria fé. Discernimento entre a idiotice de uma crença em modalidades de beleza que aparentemente salvam, pela ilusão, e a inocência de uma fé que acolhe, em simplicidade, o dom da vida, para o dar. Neste discernimento joga-se toda a razão e toda a eventual sem-razão da nossa adesão à fé cristã – e da sua pertinência para o mundo contemporâneo.
De facto, o testemunho da correcta interpretação da beleza da fé é, sem dúvida, algo de que o mundo contemporâneo, mesmo que possa parecer o contrário, urgentemente necessita. Porque parece pretender encobrir a beleza da verdade com a aparência da beleza. Um dos sintomas dessa fuga é, sem dúvida, o encobrimento da morte, como ilusória transformação cosmética da nossa finitude. A que se segue a incapacidade de solidariedade real para com os que sofrem. Bruno Forte, na sua incursão pela teologia da beleza, diagnostica assim o problema: “Este ‘declinar da morte’ conjuga-se também com o ‘declinar da beleza’: o belo é transformado em espectáculo, reduzido a bem de consumo, de modo a que seja dele exorcizado o desafio doloroso e os humanos sejam ajudados a já não pensar, a recusar a fadiga e a paixão do verdadeiro, para se abandonarem ao imediatamente desfrutável, ao calculável com o único interesse do consumo imediato. É o triunfo da máscara em detrimento da verdade; é o nihilismo da renúncia a amar, onde se busca fugir à dor infinita da evidência do nada, fabricando máscaras tranquilizadoras, para atrás delas ocultar o carácter trágico do vazio. No grande mercado da «aldeia global» parecem desaparecer os sinais da beleza: a máscara da propaganda parece triunfar, em todas as frentes, sobre a seriedade trágica da interrupção, sem defesa, da verdade e da beleza últimas”
7. As razões da fé são, assim, razões de que o mundo precisa, para sua salvação – não apenas para nossa salvação.

3. Com base na correcta interpretação da beleza da fé, torna-se possível o acolhimento da beleza das suas mediações “mundanas”, contra certos dualismos radicais e dialécticos que simplesmente as condenam como desviantes. Porque a beleza da fé permite assumir, em verdade, a(s) beleza(s) do mundo como manifestação e presença da salvação de Deus; mas, ao mesmo tempo, mantém a diferença, que pode originar ambiguidade. No dizer de Romano Guardini, num texto sobre Dostojevskij, “A beleza deveria estar reservada só ao que é válido, bom e verdadeiro, e em certo sentido é precisamente assim, mas também é inegável e inquietante o outro aspecto da beleza, segundo o qual não é inteiramente assim, e ela pode resplandecer também no mal, na desordem, na indiferença e, inclusivamente, na estupidez”
8.
O discernimento da beleza da fé e das suas razões implica a clara consciência desta ambiguidade. E a alegria provocada por essa beleza deve saber conviver com a tristeza pela sua perversão. Só na medida em que for possível incluir, na alegria da fé, a solidariedade com os que inocentemente sofrem a perversão do humano, é que essa alegria – sendo sempre alegria “apesar de tudo”, baseada na esperança e não na artificial ilusão – será uma alegria verdadeira e boa: só assim será a alegria correspondente à beleza da fé.
De certo modo, o cristão só pode alegrar-se com o mundo e fascinar-se com a sua beleza, se for capaz de, ao mesmo tempo, se entristecer e “simpaticamente” ou “compassivamente” sofrer com todas as perversões que o nosso mundo pode originar, que nós mesmos podemos provocar. Por isso a beleza da fé é, radicalmente, a alegria da esperança, a única que fundamenta e aguenta a nossa caridade. A alternativa será, possivelmente, o desespero ou o auto-engano. Haverá, então, melhor razão para que o mundo creia, para que se alegre com o que lhe é dado esperar e para que deva praticar a beleza que nos fascina?

Mark F. Dostojevskij, Der Idiot, Trad. de Arthur Luther, München: Winkler Verlag, 1993.2 C. S. Lewis, Transposition and other Addresses, London 1949, 21.3 F. Nietzsche, Die Geburt der Tragödie, Versuch einer Selbstkritik, 5.4 Ibidem, 543.5 F. Dostojevskij, Der Idiot, Nachwort, 814.6 Th. W. Adorno, Ästhetische Theorie, Ges. Schriften 7, 382.7 B. Forte, En el umbral de la belleza. Por una estética teológica, Valência: Edicep, 2004, 158.8 R. Guardini, Dostojevskij. El mondo religioso, Brescia: Morcelliana, 1954, 289.

La gioia di vivere

Gioia di vivere



La gioia di vivere ho incontrato,
il sorriso di una donna 
profuma di eternità.

Questa splendida creatura
del paradiso figlia,
ma vestita di umane forme
scuote le viscere e trema
lo sguardo.

Sempre più amarti vorrebbe, tutto
donarti il mio cuore, questo filo
un giorno catena, libertà dal mondo.

Dispersi ormai nei fiori di ricordi
appassiti, inseguimenti infiniti.

Non su libri pesanti suona questo
mio canto, non su carte preziose,
ma su invisibili pagine s'incide
la penna. 

Antiche, nuove follie 
prendono la mente e il cuore
libero giace tra i versi tranquilli.

(Matteo Manigrasso)

ISTANTI


Istanti


Se potessi vivere nuovamente la mia vita
nella prossima cercherei di commettere più errori.
Non cercherei di essere tanto perfetto, 
mi rilasserei di più.
Sarei più sciocco di quanto lo sono stato,
di fatto prenderei ben poche cose sul serio.
Sarei meno igienico.

Correrei più rischi,
farei più viaggi,
guarderei più tramonti,
salirei più montagne,
nuoterei in più fiumi.

Andrei in più posti dove mai sono andato,
mangerei più gelati e meno fave,
avrei più problemi reali e meno immaginari.

Io sono stato una di quelle persone che ha vissuto sensatamente 
e proficuamente ogni minuto della sua vita;
certo che ho avuto momenti di gioia.

Ma se potessi tornare indietro cercherei
di avere soltanto buoni momenti.
Che se non lo sapete, di quello è fatta la vita,
solo di momenti; non ti perdere l'oggi.

Io ero uno di quelli che non
andava mai da nessuna parte senza un termometro,
una borsa d'acqua calda,
un ombrello e un paracadute;
se potessi tornare a vivere, vivrei più leggero.

Se potessi tornare a vivere
comincerei ad andare scalzo all'inizio
della primavera
e continuerei così fino alla fine dell'autunno.

Farei più giri in calesse,
contemplerei più albe
e giocherei con più bambini,
se mi trovassi di nuovo la vita davanti.

Ma guardate, ho 85 anni e so che sto morendo.

La vita di Dante Alighieri

Dante Alighieri nasce a Firenze nel 1265 in una famiglia della piccola nobiltà fiorentina. Il suo primo e più importante maestro di arte e di vita è Brunetto Latini, che in questi anni ha una notevole influenza sulla vita politica e civile di Firenze. Dante cresce in un ambiente "cortese" e stringe amicizia con alcuni dei poeti più importanti della scuola stilnovistica: Guido Cavalcanti, Lapo Gianni e Cino da Pistoia.
Ancora giovanissimo conosce Beatrice (figura femminile centrale nell'opera del nostro poeta), a cui Dante è legato da un amore profondo e sublimato dalla spiritualità stilnovistica. Beatrice muore nel 1290. Dopo questa disgrazia Dante vive un momento di crisi. Dante, a partire dal 1295, entra attivamente e coscientemente nella vita politica della sua città.
La sua carriera politica raggiunge l'apice nel 1300 quando Dante, guelfo di parte bianca, viene eletto priore (la carica più importante del comune fiorentino): il poeta è un politico moderato, tuttavia convinto sostenitore dell'autonomia della città di Firenze, che deve essere libera dalle ingerenze del potere del Papa . L'anno successivo, il papa Bonifacio VIII decide di inviare a Firenze Carlo di Valois, fratello del re di Francia, con l'intenzione nascosta di eliminare i guelfi bianchi dalla scena politica. Il poeta non ritornerà mai più nella sua città natale, è condannato ingiustamente all'esilio.
Iniziò un pellegrinaggio per l'Italia. Prese contatto con Bartolomeo della Scala a Verona e con i conti Malaspina in Lunigiana, e tra il 1304 e il 1307 compose il Convivio (poi rimasto interrotto) per acquisire meriti di fronte all'opinione pubblica (per lungo tempo coltivò l'illusione di poter essere richiamato nella sua città come riconoscimento della sua grandezza culturale). Appartiene allo stesso periodo il De Vulgari Eloquentia. Col passare degli anni Dante iniziò a vedere il suo esilio come simbolo del distacco dalla corruzione, dagli odi e dagli egoismi di parte. La denuncia e il tentativo di indirizzare di nuovo l'uomo verso la retta via sono per lui l'ispirazione di una nuova poesia che prende forma nella Divina Commedia
L'imperatore Arrigo VII continua a sostenere le idee politiche di Dante, possibile portatore di pace nella nostra penisola; ma di nuovo la speranza svanisce con la morte improvvisa dell'imperatore nel 1313.
Muore a Ravenna nel 1321.
Le Opere
1295: Vita Nova. Raccolta delle poesie giovanili, scritte fra il 1293 e il 1295. Un'autobiografia spirituale, dove l'amore (per Beatrice) non è descritto nella sua forma sensibile e terrena , ma come un sentimento che porta a un amore e a un ideale di vita più alti.
1304-1306: De Vulgari Eloquentia. Scritto in latino, con regole sull'arte dello scrivere in italiano volgare. Ponendosi il dubbio della giusta o sbagliata diffusione della lingua volgare.
1304-1307: Convivio. Scritto nei primi anni dell'esilio, in lingua volgare. Cerca di convincere gli uomini di potere che lo studio della filosofia e il rispetto delle leggi morali sono una condizione necessaria per la convivenza degli uomini nella società.
1306-1321: Divina Commedia. È il capolavoro di Dante e l'opera che racchiude tutta la sua esperienza. È composta da tre cantiche (Inferno, Purgatorio e Paradiso), ciascuna delle quali comprende 33 canti, scritti in terzine di endecasillabi, eccetto l'Inferno che contiene un canto in più quale prologo all'intera opera. L'Inferno viene completato probabilmente verso il 1309, il Purgatorio verso il 1312, il Paradiso verso il 1318.
1310-1313: De Monarchia. Scritto in latino. Affiora il tema politico. Per il poeta, l'unica forma di governo che possa assicurare la pace e la sicurezza, è la monarchia, una monarchia universale, che rifletta l'unicità e l'universalità del regno di Dio e garantisca la pace, la giustizia e la libertà degli uomini.
Le Rime. Raccolta, ordinata dai posteri, dei componimenti poetici che Dante scrive nel corso della sua vita e che sono legati alle varie esperienze di vita del poeta.

A vida de Epicuro

Epicuro (341 - 269 a.C.)
           Epicuro acreditava que a filosofia é o melhor caminho para se chegar à felicidade que para ele significava se libertar dos desejos. A filosofia é um instrumento para alcançar a felicidade pois através dela o homem vai libertar-se do desejo que o incomoda. A filosofia com Epicuro passa a ter uma finalidade prática e não somente o objetivo de investigação dos fundamentos últimos do mundo e do homem.
            Ele divide a filosofia em três partes: a ética, a física e a canônica, sendo que as duas últimas estão intimamente ligadas.
            Em sua ética Epicuro aponta a felicidade como sendo diretamente ligada ao prazer. O prazer é o início e o fim de uma vida feliz. O homem é inclinado a buscar o prazer e a fugir da dor e através do critério do prazer é que nós avaliamos todas as outras coisas. Existem para ele duas formas de prazer, o primeiro é o prazer estável que é a ausência da dor e da perturbação, o que ele chama de ataraxia e aponia, nessa forma de prazer o homem não sofre e mantêm-se em paz podendo atingir a felicidade. Na segunda forma de prazer, que é a da alegria e a do gozo, o homem pode tornar-se escravo do prazer e levar uma vida perturbada, o que não é condizente com a felicidade.
            Segundo a filosofia de Epicuro é preferível a sabedoria feliz do que a insensatez feliz e a justiça é somente um acordo feito entre os homens para atingirem um fim comum que é  impedir de fazerem-se o mal reciprocamente.
            Para suas idéias sobre teoria do conhecimento e sobre lógica Epicuro deu o nome de Canônica pois as duas servem como regra para expor um critério de verdade, um cânon, que é um princípio que vai direcionar o homem para a felicidade. O cânon é formado pelas sensações, pelas antecipações e pelas emoções.
            O fluir dos átomos é o que produz as sensações nos homens. O fluir dos átomos é o que cria as imagens que são similares às coisas que os produzem. O fluxo dos átomos de uma árvore é o que cria em nós a imagem da árvore. Nós temos sensações dessas imagens e nossa percepção de mundo é produzida pela combinação de diversas imagens diferentes. Nossos conceitos são formulados pela repetição dessas sensações e pela recordação de sensações que vivemos no passado. As percepções do futuro também terão por base os conceitos que formulamos no presente. Essas sensações são o segundo e principal fundamento da verdade. O terceiro fundamento para Epicuro é a emoção que se constitui em nossa percepção do prazer e da dor.
            Nossas opiniões podem ser equivocadas quando não são confirmadas pela demonstração das sensações. Um bom raciocínio é aquele que está em conformidade com os fenômenos percebidos.
            Os estudos de física de Epicuro buscam rejeitar as coisas sobrenaturais como princípios de explicação do mundo. Para ele a física deve ser: 1° materialística, rejeitando como seu fundamento qualquer explicação sobrenatural e 2° mecanística, utilizando-se do movimento dos corpos como única explicação, rejeitando ainda qualquer explicação que busque uma finalidade para esses movimentos. Nada vem do nada, todo corpo é formado por corpúsculos menores e indivisíveis que são os átomos e os átomos se movimentam no vazio infinito. Nesse vazio os átomos colidem uns contra os outros podendo criar entre si as mais variadas combinações. O número dos átomos não é infinito, mas também não pode ser definido.
A alma é formada por partículas corpóreas que estão espalhadas por todo corpo. Essas partículas são mais tênues e delicadas e se movimentam de forma mais fácil que as outras pois são mais redondas. Com a morte os átomos da alma se separam e nós não podemos mais ter as sensações. A morte é o fim tanto do corpo quanto da alma e por essa razão nós não precisamos ter medo dos deuses.

Sentenças:
- As almas pequenas na sorte se desenvolvem, nas adversidades regridem.
- O homem sereno busca serenidade para si e para os outros.
- A morte não é nada para nós. Quando nos dissolvemos não temos mais sensibilidade e sem sensibilidade não nos resta nada.
- A vida do justo não é perturbada pelas inquietações, mas a vida do injusto é cheia delas.
- Toda amizade tem por base o proveito próprio.
- As pessoas terminam sua vida como se tivessem acabado de nascer.
- Não faça nada que teu vizinho não possa saber.
- Não devemos pedir aos deuses o que podemos realizar.
- O melhor da auto-suficiência é a liberdade.
- A morte não significa nada para nós pois quando nós somos ela não é e quando ela é, nós não somos.
- Nada é suficiente para quem considera o suficiente pouco.
- O prazer é o principal bem, ele é a ausência de dor no corpo e de inquietações na alma.

O humanismo ateu



O HUMANISMO ATEU

Por Jorge Ribeiro[1]


Aquilo que sou e aquilo que eu pretendo ser até que ponto é o objeto de minha consciência? Estou deveras interessado pelo meu surgir e pelo meu devir ou apenas me basta o meu aparecer? O que permanece em mim e de mim além do momento fugidio e arredio que o presente me impõe? A partir da constatação de uma crise generalizada de costumes e de senso antropológico e o emergir de novas banalidades, a reflexão sobre o pensamento moderno e, especialmente, do humanismo ateu, pode nos ajudar não somente a nos interrogar sobre a indiferença globalizada, mas também sobre a marginalização da pessoa como sujeito de direitos, deveres e de destino. Partindo do texto de Henri De Lubac: O drama do humanismo ateu, buscaremos numa perspectiva cristã revisitar e interpretar esse drama que entra de maneira violenta e revolucionária na sociedade hodierna. Não é um texto exauriente e de grandes pretensões, mas quer ser um esboço para possíveis explorações no campo da filosofia, ou seja, olhando o homem e os reflexos que são imprimidos no seu rosto com quais realidades nos confrontamos? E por que esse afã desordenado de quer mais ter e dominar que ser e compartilhar? O que leva uma pessoa a se distanciar de si mesma em função de certo status e posição social? Por que a negação de traços fundamentais de sua estrutura em nome de uma liberação que resulta em prisão?
De Lubac afirma que para o homem, conhece-te quer dizer conhecer a tua nobreza e a tua dignidade, compreender a grandeza do teu ser e da tua vocação, daquela vocação que constitui o teu ser. Saiba ver em ti o teu espírito, feito pelo Absoluto. O conhecer aparece como reconhecer, o que é sem dúvidas o primeiro passo para uma auto-avaliação e que exerce o papel de olhar para dentro de si e extrair o que ainda coloca em reticências a própria estrutura. Outras informações: www.pjribeiro.blogspot.com
Como os antigos Padres da Igreja, também os grandes doutores medievais tinham por sua vez, sem distinção de escola, exaltado o homem, expondo o que a Igreja sempre ensinou referentemente à relação do homem com Deus: em cada homem a magnificência, em cada um a dignidade.
Mas o homem um dia não foi mais tocado por isso. Começou a acreditar que jamais tinha estimado a si mesmo e não poderia ter se desenvolvido livremente se não tivesse tocado os laços com a Igreja, depois com aquele mesmo Ser transcendente do qual a tradição cristã o fez depender.
O homem elimina Deus para reentrar ele mesmo na possessão da grandeza humana que lhe parece indevidamente retida por um outro. Em Deus ele abate um obstáculo para conquistar a sua liberdade. O humanismo moderno se constrói sob um rancor e inicia com uma escolha.
O humanismo não surgiu entre nós de maneira brusca como um bloco errático num deserto sem ligação com a paisagem circundante. Recolheu e explorou largamente a herança duma tradição anterior. Não podemos fazer uma análise, ainda que incompleta, de suas fontes, isso excederia em muito o objetivo do nosso estudo. Bastará lembrar os nomes de alguns precursores, cuja influência se mantém viva. Em Particular Comte, Feuerbach e Nietzsche comunicaram ao humanismo certos traços de família ainda visíveis.
A idéia de um Deus transcendente é rejeitada por Comte, com firmeza, mas sem acrimônia, em nome da ciência positiva. Essa crença tradicional parece-lhe ultrapassada pelas descobertas modernas relativas à origem do homem e do universo. No entanto, a negação de Deus entra numa nova fase. Outrora, o ateu encontrava-se com o crente no mesmo campo de discussão. Punha o problema nos mesmos termos, segundo os mesmos modos de raciocínio, em nome dos mesmos princípios. Exata atitude parece a Comte tímida e perigosa, porque o ateu, apesar de sua segurança, se expõe a regressar atrás. A inquietação e a fé arriscam-se a ressuscitar, mais dias menos dias, numa inteligência ainda imbuída de preocupações religiosas.
Por isso convém extirpar as raízes da crença, sufocando o sentido do absoluto e excluindo qualquer pesquisa metafísica. Desde então o problema teológico torna-se difícil e sem interesse: morre de inanição. Nunca mais se levantará (A. Comte, Discurso sobre o Espírito Positivo, 51-53). O reino de Deus fica irrevogavelmente exausto.
Era apenas uma regência provisória durante a infância da humanidade. Agora, que o homem atingiu a idade adulta e que entrou na era da ciência positiva e da emancipação intelectual, afasta a questão religiosa como um falso problema. Descobre mesmo a s ilusões que outrora a suscitaram: a ignorância e a ingenuidade. Mas, sabendo que não se destrói uma coisa senão substituindo-a, Comte substitui a idéia de Deus pelo culto da humanidade, promovida à categoria de divindade nova (De Lubac, O drama do humanismo ateu, 169-171). A sociologia substitui a religião.
Muitos desses temas passaram para o laicismo doutrinal. Não se trata de uma atitude prática de neutralidade entre diferentes confissões, mas antes de uma metafísica que rejeita qualquer dogma sobrenatural, qualquer moral transcendente, qualquer socorro vindo do alto. A hipótese de uma ordem divina seria um obstáculo à expansão do homem. Um dos mais argutos teóricos do laicismo, Guy-Grand, define essa tendência como uma concepção puramente humana da vida, oposta á uma visão religiosa: “entre os partidários da razão, como entre os partidários das religiões, as discussões nem sempre são claras; mas, quaisquer que sejam os cambiantes, a linha divisória é nítida: entre o natural e o sobrenatural, entre Deus e o homem” (Guy-Grand, Sur la Paix religieuse, 11; 179). De resto, o mesmo autor chama de laicismo à tendência para colocar o fundamento de toda a moral na razão, à margem de Deus: “e é por isso que a palavra humanismo, entendida no seu pleno significado, é aquela que melhor lhe convém” (Cfr. Charmot, L’humanisme et humain, 82-84).
O mesmo se poderia dizer do sistema de L. Feuerbach. Ele centra os seus olhares sempre sobre o homem, ao nível da matéria e nos limites da vida presente. Subsume progressivamente a transcendência na imanência e reduz a religião a um rigoroso naturalismo. Substitui primeiro o Deus do protestantismo pela razão divinizada, à maneira do panteísmo. Depois identifica Deus com a humanidade, foco único de inteligência, de vontade e de amor. É esse o sentido dessa profissão de fé, que lembra a lei dos três estados de Comte: “Deus foi o meu primeiro pensamento, a razão o segundo, o homem o terceiro” (Lévy, A filosofia de Feuerbach, 52-53). Deus é o termo de uma alienação do homem.
Encarna as suas qualidades, mais do que os traços próprios de cada indivíduo, exprime as propriedades características da espécie, na sua universalidade espacial e temporal. Deus infinito, é a razão dotada de um poder absoluto (L.Feuerbach, Essência do cristianismo, p.60).Deus bom, é o amor espontâneo de cada um por si mesmo (Idem, 86). A religião não tem, pois, outro objeto que não seja o homem (Idem, 221), nem outra origem que não seja uma transferência de sua personalidade para uma quimera (Idem, 103): “vampiro da humanidade que se alimenta da sua substância, da sua carne e do seu sangue” (Feuerbach, citado por Spenlé, La pensée allemande de Luther a Nietzsche, 122).
No espírito de Feuerbach, as negações religiosas derivam de preocupações humanitárias. O que ele encara é uma libertação da servidão metafísica e espiritual. Porque o remédio deve se adaptar à doença: é preciso arrancar a máscara aos fantasmas, despoja-los de seu falso prestígio, trazer para a terra a essência projetada no céu, restituir ao homem as suas riquezas perdidas. Negar qualquer realidade estranha ao universo, é afirmar o valor supremo da humanidade (Lévy, A Filosofia de Feuerbach, 47-49). Para enaltecer o homem Feuerbach renega Deus.
Nietzsche acalenta contra Deus a mesma paixão. Pretende atingir os extremos limites do ateísmo e lançar as suas bases definitivas. <>; esta proclamação, muitas vezes retomada por seus discípulos, domina as obras de seus últimos anos. Não se trata de um tema entre muitos outros, mas da inspiração que anima todos os movimentos de um pensamento caótico e ardente (Jaspers, Nietzsche, 246; 430ss; De Lubac, Op. Cit. 42-46; Thibon, Nietzsche ou le déclin de l’espirit, 34ss).
Aos olhos de Nietzsche, Deus é apenas uma ilusão do homem que procura uma compensação para a sua miséria. Pesadelo que leva a uma fuga do mundo e a grandes tarefas humanas. Eis porque a fórmula: <>, não é o simples enunciado de um fato verificado, nem o queixume de uma alma enlutada, nem a ironia de uma inteligência lúcida. É uma resolução tomada. Nietzsche não quer dizer “Deus não existe”, nem: “não creio em Deus”; mas antes: <>. O ateísmo aqui é uma negação ativa, um partidarismo, um verdadeiro deicídio.
Essa atitude se explica pelo temperamento de Nietzsche que, num sistema filosófico, vê antes um eco do instinto do que uma obra da razão. Não um conjunto de verdades impessoais, mas a expressão subjetiva de um caráter, memórias ou confidências. Os juízos que estabelecem a “tábua de valores” não assentam sobre argumentos racionais. “Vivem-se de certo modo. Um livro é, antes de mais, um ato. Nietzsche arvora-se em profeta, mais do que um pensador. Não critica os argumentos de seus adversários. Prefere infligir-lhes  o seu desprezo e os seus sarcasmos. Classifica as suas doutrinas, não como erros, mas incluindo-as na categoria das doenças ou flagelos naturais (Lichtenberger, La Philosophie de Nietzsche, 4-5).
Nietzsche julga o assassinato de Deus necessário à expansão do homem. A perfeita solidão assim criada à sua volta, alarga o círculo de seu horizonte e liberta-o de quaisquer limites. A sua vontade identifica-se com a justiça; o seu contato santifica todas as coisas; a sua bondade e a sua força alastram até ao infinito (Assim falou Zaratustra, 118; A gaia ciência, 180).
A morte de Deus conduz logicamente à inversão dos valores tradicionais. Verdade e dever subsistiam graças a ele; falsas divindades que arrasta consigo para o túmulo. Resta a divisa da sociedade misteriosa dos “assassinos”, encontrada pelos cruzados no próximo Oriente: “Nada é verdadeiro. Tudo é permitido”. O sábio cria livremente os princípios de onde decorrem os juízos intelectuais e morais. Viver é inventar valores. Eclipse da razão, falência da moral, são estas as conseqüências que implica a morte de Deus.
Perante estas ruínas trágicas, o homem moderno fica estupefato e inquieto. Numa página muitas vezes citadas da Gaia Ciência, Nietzsche imagina um louco fazendo irrupção numa praça pública com uma lanterna na mão, em pleno dia, e gritando sem parar: “Ando à procura de Deus!Ando à procura de Deus! A multidão primeiro surpreendida, não tarda a começar a sorrir. Mas o louco continua: “Para onde foi Deus? Vou dizer-vos: Matamo-lo, vós e eu!Todos nós somos os assassinos dele! Mas como o pudemos fazer! Como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, quando desprendemos esta terra da cadeia do seu sol? Para onde a conduzem agora os seus movimentos?... Não andaremos errantes através de um nada infinito? O vazio não nos seguirá com o seu hálito? Não estará mais frio? Não vedes avançar incessantemente a noite, cada vez mais cerrada?”(A Gaia, 161)”.
O assassinato de Deus convulsiona a vida do homem forçado a tomar o seu lugar. Silenciosos os testemunhos desta cena encaram estupefatos o louco. E este, arremessando bruscamente a lanterna que se estilhaça, conclui com despeito: “Chego demasiado cedo, a minha hora ainda não soou. Este acontecimento enorme está a caminho, avança mas ainda não chegou aos ouvidos dos homens... Este ato está ainda mais longe deles do que o mais remoto dos astros, e contudo foram eles que o realizaram!”.
Que coisa se tornou o homem desse humanismo ateu? Um ser que a si mesmo se ousa chamar ainda de ser. Uma coisa que não tem interioridade, uma célula totalmente imersa numa massa em devir. Homem social e histórico, do qual não permanece mais nada que uma abstração fora das relações sociais e da situação em que se define tal. No homem não tem mais nem interioridade nem estabilidade e nem profundidade.
Mas sob essa diversidade se encontra sempre o mesmo caráter fundamental, a mesma essência. Este homem é literalmente dissolvido. Quer seja em nome do mito ou em nome da dialética, perdendo a verdade, perde a si mesmo. Na realidade não tem mais homem, pois não tem mais nada que transcenda o homem. O humanismo ateu não poderia concluir-se senão em um falimento.
 O homem é si mesmo somente porque a sua face é iluminada por um raio divino. Se o fogo desaparece, subitamente o seu reflexo some. Deus não é para o homem somente uma norma que se lhe impõe e que, guiando-lhe, eleva-o: Ele é o Absoluto que o funda, é a calamidade que o empurra, o além que o incita, é o Eterno que lhe oferece o único clima em que pode respirar, é de certo modo aquela terceira dimensão que o homem encontra a sua profundidade (Thibon, A escada de Jacob).
Sem Deus a verdade mesma é um ídolo, e a justiça também é um ídolo. Ídolos demasiados puros e pálidos com relação aos grandes mitos coletivos que despertam os instintos mais potentes. O laicismo da sociedade moderna constituiu o álveo dos grandes sistemas revolucionários que hoje precipitam como uma avalanche (De Lubac, O drama do humanismo ateu).
Para as pessoas que se colocam em caminho, com a tranquilidade de viver a beleza do caminho e a densidade que o dinamismo das experiências oferecem, a possibilidade de se deixar tocar pelo Absoluto e de mergulhar no seu infinito horizonte não é um fuga ou alienação e muito menos uma busca desenfreada de proteção ou de divinização, mas a consciência da própria descontinuidade e da própria condição de peregrino de um mundo aberto e que faz tocar o véu da eternidade. A sede e a fome de realização que corrói cada pessoa humana e que muitas vezes para tentar uma certa satisfação empurra essa mesma pessoa a longínquos abismos e profundas feridas, essa realidade é a mesma natureza humana que vai além de si mesma e que busca desvendar o seu mistério.


BIBLIOGRAFIA

DE LUBAC, H., Il drama dell’umanesimo ateo, Jaca book, Milano 1996.
FEUERBACH, L., A essência do cristianismo, Vozes, Petrópolis: 1994.
NIETZSCHE, F., Gaia ciência, Companhia das Letras, São Paulo: 2001.
RIBEIRO, J., Natureza e Espirito em Schelling, CEAS, Roma: 1995.
SARTRE, J-P., O ser e o nada, Vozes, Petrópolis: 2004.




[1] Formado em filosofia, teologia e antropologia. Professor de filosofia na Facfs.
“LA VERA AMICIZIA"


La vera amicizia molte volte è più rara del vero amore.
Il sentimento dell’amicizia è prezioso.
A volte basta la mano dell’amico per non affondare nelle sconfitte o cadere nella disperazione.
Con l'amico non si ha timore di scoprire sè stessi perchè accetterà l'essenza dell'altro, senza riserve o pregiudizi.
L’amico veglia sulla solitudine dell’altro e riesce a trasformare un luogo sterile in un luogo di delizia.
Un amico sincero è molto importante, trasmette gioia e la sua compagnia è come un profumo.
Con l’amico si instaura un’unione profonda e la mente si libera da molte preoccupazioni.
La vicinanza dell’amico non è mai un fastidio.
Un amico ama sempre: è un fratello nelle sventure.
Come in amore, l’amicizia va coltivata quotidianamente come un campo.
L’amico confida le proprie difficoltà, i propri pensieri e cerca pace nell’altro.
Anche nel silenzio l’amico comprende il cuore dell’altro.
L’amicizia condivide pensieri, desideri, speranze.
L’amico partecipa alle gioie dell’altro e scopre il suo cuore nelle piccole cose.
La lontananza non fa cessare un legame di amicizia; anzi il solo pensiero dell’amico ci fa comprendere ciò che amiamo in lui.
L’amicizia è come un edificio che viene costruito durante tutta la vita; se non si vuole che esso crolli occorre ogni giorno lavorarci sopra.
Ogni mattina bisogna guardare l’amico con occhi nuovi, mostrandogli amore, attenzione, perdono.
Per fare ciò bisogna rinnovarsi nel tempo non permettendo alle abitudini di depositarsi come polvere sul cammino.

Mi piace molto questo pensiero:
“Se hai un amico và spesso a trovarlo, perché le spine e le erbacce invadono il sentiero che non viene percorso”.

Con l’amico ogni giorno è diverso.
Nelle sofferenze l’amicizia si rinforza.
L'amico conosce le debolezze, i difetti dell’altro, e nonostante ciò non smette di amarlo.
Nei momenti di turbamento, di paura ci si può rivolgere al vero amico per essere confortati e nei momenti di gioia per condividere la felicità.
Lo sguardo dell’amico sa comprendere anche senza parlare la tristezza e la felicità dell’altro.
L'amico sa perdonare e dimenticare.
Egli porta con sé un barlume di speranza ed è colmo di gratitudine verso l’altro.
L'amico porta un raggio di luce, un sorriso nella vita dell’altro.
Conserva gelosamente un "vero" amico perchè non è facile trovarlo.

Pra se pensar ....

Desespero anunciado

Desespero anunciado Para que essa agonia exorbitante? Parece que tudo vai se esvair O que se deve fazer? Viver recluso na pr...