POVO CARENTE

Povo carente



Viemos numa era de total carência
Uma necessidade enfadonha de reconhecimento
Realizamos atos para sermos observados
Consumimos e utilizamos coisas para sermos conclamados
Reviravolta mediática e costumes que globalizamos!


Andamos errantes em busca de presenças
Mendigos insistentes de atenção e afetos
Peregrinos que clamam sentido e significado
Vitimas do vazio e de um paraíso roubado
Sina de um povo carente e crucificado!


Prisioneiros de sistemas, aventuras e modismos
Atraídos por formas e valores  de outros
Corrida por poderes, status e oportunidades
Perda paulatina de Identidade e da igualdade

Ausência de regras, de razões e de responsabilidade!

INSOSSO

Insosso


Que gosto estranho
Os dias parecem se repetirem
Tem gente reclamando o tempo todo
Tudo parece insosso
Que ausência de sabor nesses dias quentes
Certa náusea permeia os relacionamentos
Sintomas de amargura
Moscas esvoaçam sem pouso
E se caminha sem destino
Qual insensatez insalubre
Monotonia e cansaço

Reflexo de um mundo insosso!

Incertezas religiosas e politicas: Montaigne

AS INCERTEZAS


O mundo é somente esse que vemos ou existem vários mundos? A terra é redonda ou oval? A terra é ao centro ou na periferia do universo? O homem é ou não o centro da natureza e da terra? O sol gira do eixo da terra ou a terra gira em torno do sol? O cristianismo é a religião verdadeira ou há outras possibilidades de se encontrar com Deus? É justo lutar pela supremacia do catolicismo ou não? Por quais caminhos ou convicções devemos nos apegar? Talvez essas perguntas ordinárias do inicio do humanismo renascentista povoavam a cabeça de Montaigne, a ponto que ele venha a se perguntar que: «Nunca se viu na guerra tanta circunspecção e prudência como entre nós; será porque temem perder-se em caminho e se reservam para a catástrofe final» [1]?  São sintomas das incertezas que rondavam a sociedade de então, o que acalhava certo espírito de controle e de domínio para evitar demasiada dispersão. As normas e as regras se sobressaltam, o que contraria os “espíritos livres” ou que não se deixam engaiolar na onda de ortodoxia. Parece muito insistente e defensivos certos posicionamentos, e nessa atmosfera Montaigne não poderia ter outro sentimento, afirmando que: «Detesto toda espécie de obrigação, e em particular as que possam resultar de um ponto de honra; e qualquer dom que implique reconhecimento de minha parte parece-me demasiado oneroso»[2]. É uma referência à imposição de um “protestantismo” e da aceitação forçada que exigem os “dogmas”, de uma referência obrigatória a autores famosos[3] e a tudo que se declare “sistematizador”.
Com incertezas de todos os lados, busca-se justificar e exagera-se, tanto que ele diz que a mania de escrever parece ser sintoma de um século perturbado, isto é, usam letras demais, quer dizer na linguagem de Montaigne que: «quanta palavra para tratar da palavra» [4]. É certo que a Reforma religiosa causou muito preconceito sobre a vida nessa época francesa. A teologia, entrando para a língua do «vulgar», ensina as virtudes do «viver bem» para àqueles que até então desconheciam tal realidade. Mas o humanismo reside numa forma de chamar os homens aos verdadeiros sentimentos humanos. A obsessão das guerras religiosas se dissecarão, e são lentamente transformadas em pungente piedade, ou seja, na percepção de uma urgente necessidade de reconciliação e de paz. Os distúrbios e motins preparam uma sociedade na qual a real paixão religiosa e convicção políticas se dissiparão numa elegante corrupção. Nasce assim a busca de um pouco de doçura no meio de uma sociedade fútil, indiferentes e descrente. É nesse clima que se insere, aceita e promove a teologia de «Raymond de Sebond». Há sim um clima de pessimismo em torno do século, mas, ao mesmo tempo, se verifica um intenso desejo de viver. Este século aspira à paz, depois de tantas “novidades” e divergências, e assim nasce uma espécie de “ecletismo”, o qual invade o pensamento em geral, já que está se tentando conciliar o que ha de positivo nas paixões políticas, religiosas e literárias. As novas “possibilidades” invadem o imaginário coletivo, e assim vemos proliferar uma quantidade incomensurável de artistas, estudiosos, poetas, invenções e também de religiões, o que causa muitas incertezas.
(Texto: Ribeiro, Jorge: As razoes da Tolerância em Montaigne, 2013)



[1] De l’art de conferer. Essais III, 8. Oeuvres Complètes, 912.
[2] De Vanité. Essais III, 9. Oeuvres Complètes, 944.
[3] Starobinski, J., Montaigne em Mouvement, 211.
[4] De la Vanité. Essais III, 9. Oeuvres Complètes, 923.

Haveria amado

Haveria amado



Nevrálgico
Atordoado
Não vejo nada além de ti
Querer bem é uma longa viagem
O escuro da noite é o escuro do sol
Jogado ao mar em improviso
Carne trêmula e esperança silenciosa
Em um abandono sem perdão
Como posso não ser mais meu?
Haveria amado sim
Os pesadelos passam como os sorrisos
Vem tocar os destroços de mim
Apenas sei que haveria amado
Mãos ríspidas e anseios dessecados
Dias de primeiros respiros e primeiros temores
Queria ter a chave da força do teu abraço
Deixa cair as cinzas da solidão
Qualquer pessoa haveria amado!





PERPLEXIDADE

PERPLEXIDADE


Tempo e sonhos despedaçados
Um gosto amargo do cotidiano
Espera adormecida e despedaçada
Ilusões de dias sem dores e sem angústias
Liberdade fragmentada e desencaminhada
Gritos sufocados de alternativas inexistentes
Inquietação e sofocos. Perplexidade!

Clamo, rezo, imploro e tudo é igual
Choro, implico, resmungo e nada se move
Sou matéria movediça de um paraíso perdido
Sou desejo de ser o que a natureza negou
Busco saídas e somente encontro  absurdos
Almejo reencontro e apenas murmúrios perdidos
Uivos e crueldade. Perplexidade!

Orgulho e futuro feridos
Passado pesante e presente incerto
Loucuras e transferências divinizadas
Submissão administrada e ira contida
Desleixes e defeitos assumidos
Fragilidade estrutural e crença vacilante
Mania de revolta. Perplexidade!


Escravo de mim

E eu escravo de mim…


Quantas vezes me iludi pensando ser livre
E depois será como morrer, uma noite que nunca passa…
Um amor que não faz voar, que faz respirar e depois abandona.
Essa escuridão terrível que assombra todo sonho
E tudo depois será como desaparecer, um vazio que causa vertigem…
Chamo-te e não me responde, espero-te e nunca apareces
E eu nas noites esvanecido de tantos pensamentos e me adormento na solidão!
O incrível é que tudo passa, dias virão e outras coisas invadem.
Uma diferença abissal e insuficientes distinções e continuamos de olhos abertos!
Fecho os olhos esperando não mais lhes abrir e a morte não me alcança!
E continuo escravo de mim…
Escravo de meus desejos, os mais lúcidos, os mais sagrados e os mais desconcertantes!
Escravo de meus sonhos, os mais reais, os mais sensíveis e os mais atrozes!
Escravo de meus pensamentos, os mais nobres, os mais geniais e os mais destrutivos!
Escravo de minhas ações, as mais sinceras, as mais acertadas e as mais inúteis!
Escravo de meu destino, escravo de minha natureza, escravo de minhas escolhas, escravo de mim!
Memórias de vidas vividas, emoções sofridas e sentenças imaginadas!
Agonias de problemas atuais e de refúgios em veredas inexistentes!
Abraço a absurdos que amedrontam um sentido suicida!
Insanidade voluntária de uma escravidão anunciada!
Profanação de uma biografia que se desvincula da barbaridade do cotidiano!
Buscas incansáveis de si que se entrelaçam na areia movediça da angústia de viver!
Tempos, conhecimentos, realizações: e eu escravo de mim

Jorge Ribeiro

Novembro 2014

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